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Mata Atlântica recupera 1,67 milhão de hectares em 10 anos, aponta estudo

Pesquisadores revelam avanço da restauração na Mata Atlântica na última década e alertam: proteger as florestas jovens é decisivo para o futuro do bioma

O estudo, publicado na revista científica PECON (Perspectives in Ecology and Conservation), reuniu 16 pesquisadores afiliados a 14 instituições diferentes, compostas por Universidades, ONGs e coletivos de restauração. A pesquisa mostra que 1,67 milhão de hectares de floresta nativa foram recuperados no período de 10 anos (2011-2021). O trabalho tem como primeiro autor Vinicius Tonetti, pesquisador de pós-doutorado da UFSCAR e do projeto Fapesp Estratégia Mata Atlântica. Todos os autores integram a Força-Tarefa Geoespacial do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, um coletivo formado majoritariamente por membros voluntários, entre os quais apenas Bárbara Paes, que teve participação fundamental no estudo, atua profissionalmente no Pacto.

As análises foram realizadas com base nos mapeamentos do MapBiomas (Link), que tem Marcos Rosa, segundo autor do estudo, como um dos idealizadores. Embora os dados não permitam diferenciar áreas de restauração ativa (i.e., quando há intervenção direta, principalmente por meio do plantio de mudas) de regeneração natural, ou seja, quando a própria floresta recupera o que foi degradado, sabe-se que a maior parte das áreas recuperadas resultou de processos naturais de regeneração. O processo é um aliado estratégico da restauração, pois permite recuperar grandes áreas com custo relativamente baixo e alta eficiência ecológica. Como a maioria das espécies arbóreas em florestas tropicais têm suas sementes dispersas por fauna frugívora, especialmente aves e mamíferos, esses animais desempenham um papel fundamental na promoção da regeneração natural.

Os mapeamentos resultantes do estudo mostram que a regeneração ocorreu de forma mais ampla em Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%). A maior parte da recuperação ocorreu em mosaicos de uso (75,2%) — áreas com mistura de agricultura, pasto e vegetação nativa de acordo com o MapBiomas — e pastagens (16%).

Os dados são positivos, porém, vêm acompanhados de um alerta: do total de floresta que regenerou no período, 568 mil hectares de floresta não persistiram até 2023, o último ano da análise. O resultado mostra que nem toda floresta que volta a crescer consegue permanecer, e reforça a necessidade de políticas de proteção e incentivos contínuos para garantir que a recuperação da vegetação seja persistente no tempo. Políticas de Pagamento por Serviços Ambientais, fiscalização ambiental e proteção de florestas secundárias são fundamentais para que essas áreas se consolidem e cumpram seu papel na preservação da biodiversidade, regulação climática por meio do armazenamento de carbono, além de outros serviços ecossistêmicos essenciais, como abastecimento de água.

Com a maior extensão de florestas tropicais do mundo, o Brasil tem um papel central na agenda global de restauração. A Mata Atlântica, altamente fragmentada e povoada, tem potencial de ser considerada um modelo de restauração baseada em ciência — um exemplo de que é possível recuperar florestas em larga escala mesmo em paisagens produtivas.

Sobre o Pacto

O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica reúne mais de 360 organizações e é hoje uma referência internacional reconhecida pela ONU como iniciativa flagship da Década da Restauração de Ecossistemas (2021–2030). Esses dados contribuem para atingir a meta do coletivo de restaurar 15 milhões de hectares até 2050.

“Esses resultados mostram que restaurar a Mata Atlântica é um caminho realista e necessário para enfrentar as mudanças climáticas e proteger a biodiversidade. Mas também lembram que o trabalho não termina quando a floresta começa a crescer — é preciso garantir que ela continue ali”, afirmam os autores do estudo.

Comunicação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica

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