Livro sobre a vida de seringueiros da Amazônia será lançado na Bienal
Desenvolvido pela arquiteta Marlúcia Cândida, publicação reúne pesquisa de campo em reservas extrativistas e inspira o Pavilhão Casa Empate
São Paulo, abril de 2026 – A arquiteta e urbanista Marlúcia Cândida lança, no próximo dia 21 de abril, seu livro “A colocação e a Casa do Seringueiro: exemplo de arquitetura vernácula da Amazônia”, durante a Bienal de Arquitetura Brasileira, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A obra é resultado de sua pesquisa de mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília e reúne estudos sobre modos de construir e habitar na floresta amazônica, a partir da vivência com comunidades extrativistas no Acre.
Desenvolvida na região do Alto Acre, especialmente na Reserva Extrativista Chico Mendes, a pesquisa investiga a origem, o modo de vida e as soluções construtivas de famílias seringueiras, considerando a migração de populações do semiárido nordestino para a Amazônia. O livro mostra como esses saberes foram adaptados a um território marcado por alta umidade, rios e solos alagados, dando origem a construções elevadas e a uma organização espacial que reflete tanto as condições ambientais quanto a dinâmica social das famílias.
“A arquitetura da casa do seringueiro é resultado de um conhecimento que foi sendo transformado no tempo, a partir da experiência com o território. É um saber que vem de geração em geração e que carrega identidade, memória e adaptação”, afirma Marlúcia. Segundo a autora, a chegada das mulheres foi determinante para a configuração dessas moradias, ampliando os espaços e definindo funções internas como cozinha, quartos e áreas de convivência, elementos que revelam também a dimensão social e cultural da arquitetura.
A obra também analisa como esse repertório vernacular influenciou a arquitetura moderna brasileira, a partir de referências como Lina Bo Bardi, que incorporou soluções tradicionais em projetos contemporâneos. Ventilação cruzada, uso de materiais naturais e estruturas elevadas, como os pilotis, são alguns dos exemplos dessa transposição entre o saber popular e a arquitetura erudita.
O conteúdo do livro inspira diretamente o Pavilhão Casa Empate, espaço expositivo apresentado na Bienal e desenvolvido por Marlúcia com apoio de Marcelo Rosenbaum. O projeto recria o interior de uma moradia seringueira e traduz, por meio de materiais, objetos e ambientações, os modos de vida da floresta, com destaque para o protagonismo feminino e para o papel da casa como espaço de organização social, encontros comunitários e resistência.
O evento segue até 30 de abril e, no dia 21, o pavilhão recebe, às 18h, um encontro aberto ao público com Marlúcia Cândida, Marcelo Rosenbaum e as lideranças seringueiras Emília Campos e Ronaira Barros, que compartilham vivências sobre os “empates” — movimentos pacíficos de resistência ao desmatamento liderados por nomes como Chico Mendes — e a vida na floresta. Na sequência, às 19h, ocorre o lançamento do livro, seguido de sessão de autógrafos, ocasião em que a autora também apresenta como os saberes tradicionais investigados na obra influenciam sua produção contemporânea, com seus outros projetos que incorporam aspectos da arquitetura vernacular amazônica.
Sobre a Marlúcia Cândida
Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Marlúcia Cândida possui especialização em planejamento ambiental pela Universidade Federal do Acre e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília. Com experiências internacionais, realizou cursos no POLI.design, em Milão, e no Instituto Europeu de Design, em Barcelona, além de ter colaborado com o escritório Simone Micheli Architectural Hero, na Itália. Em seus projetos, trabalha a relação entre memória, território e biofilia, incorporando princípios da neurociência aplicada à arquitetura.

