Amazônia

Estudo rebate ‘savanização da Amazônia’, mas alerta para perda de biodiversidade

Pesquisa, iniciada em 2004, é conduzida pelo pesquisador brasileiro Leandro Maracahipes e é apoiada pelo Instituto Serrapilheira
 

Um estudo publicado nesta segunda-feira (20) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) mostra que a Floresta Amazônica não vai se transformar em savana mesmo após repetição frequente de incêndios, contrariando previsões de modelos teóricos. Ao longo de mais de 20 anos de monitoramento, pesquisadores brasileiros observaram que as áreas afetadas foram capazes de recuperar características estruturais de floresta. No entanto, essa restauração vem acompanhada de perdas significativas de biodiversidade e maior vulnerabilidade a novos eventos extremos, como destaca o primeiro autor do artigo, Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
 


Divulgação/Yale School of The Environment


“A novidade deste estudo é mostrar que as florestas altamente impactadas por múltiplos distúrbios conseguem se recuperar. Elas conseguem se regenerar em vários aspectos, mas alguns processos, especialmente na borda, ainda vão levar muito tempo para se recuperar”, afirma Maracahipes.
 

A possibilidade de a Amazônia se transformar em uma paisagem semelhante à savana — processo conhecido como savanização — foi amplamente debatida nas últimas décadas. Em relatórios anteriores do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, da ONU), modelos climáticos indicavam que o aumento da temperatura e alterações no regime de chuvas poderiam levar a uma reorganização da vegetação. Nesse cenário, a floresta deixaria de ter as características de um ambiente denso e úmido, passando a apresentar uma estrutura vegetal mais aberta, com menor densidade de árvores e maior presença de gramíneas, características típicas de ecossistemas savânicos.
 

A pesquisa recém-publicada foi feita na Estação de Pesquisa Tanguro, no Mato Grosso, um dos principais laboratórios de campo para o estudo da Floresta Amazônica. Localizada no município de Querência, região de transição entre a floresta amazônica e o Cerrado, a estação foi criada em 2004 pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em parceria com instituições nacionais e internacionais. Os experimentos na Tanguro, inserida em uma área de expansão agrícola, permitem observar, em condições reais, como o desmatamento e o uso da terra influenciam a dinâmica da floresta.
 


Leandro Maracahipes na Estação de Pesquisa Tanguro | Divulgação/Yale School of The Environment

Ao longo de mais de 20 anos, pesquisadores fizeram por conta própria, como parte do estudo, queimadas experimentais e acompanharam a resposta da vegetação a incêndios repetidos, secas severas e tempestades de vento. As bordas da floresta concentraram os maiores impactos porque estão diretamente expostas às alterações do entorno. Neste contexto, com o avanço da agricultura e do desmatamento, essas regiões ficam mais quentes, secas e sujeitas à ação do vento, o que leva a mortalidade das árvores grandes e favorece a propagação do fogo, dificultando a regeneração natural. Além disso, o histórico de uso para pastagem introduz vegetações mais rasas, como as gramíneas exóticas, que alteram o comportamento dos incêndios.
 

“Com a abertura do dossel (camada superior formada pelas copas das árvores, que regula a entrada de luz na floresta) há mais luminosidade no ambiente, o que permite o estabelecimento das gramíneas. Como essas áreas eram pastagens no passado, algumas espécies já estavam ali e se proliferaram, principalmente na borda”, explica Maracahipes.

Essa dinâmica cria um ciclo de retroalimentação. A presença de gramíneas aumenta a intensidade dos incêndios, o que provoca a morte de mais árvores e mantém o ambiente aberto e com mais chance de inflamar.
 

Os dados mostram que o impacto do fogo é amplificado nessas zonas de borda. Nessas áreas, a riqueza de espécies caiu 20,3% em áreas queimadas anualmente e 46,2% em áreas queimadas a cada três anos logo após os incêndios. Mesmo com a regeneração ao longo dos anos, essas regiões ainda apresentavam perdas de 31,3% a 50,8% na diversidade. Já no interior da floresta, a diversidade permaneceu relativamente estável — com variações pequenas, como de 71 para 69 espécies — e áreas sem queimada registraram aumento de até 21% na riqueza de espécies.
 

Apesar da recuperação estrutural da floresta, a composição das espécies muda de forma persistente. Espécies típicas de florestas densas são substituídas por plantas mais generalistas. Em alguns casos, essas espécies passaram a representar até 93,3% da vegetação nas bordas, evidenciando um processo de homogeneização ecológica. A proporção de espécies pioneiras também aumentou significativamente, chegando a mais de 70% em áreas mais impactadas.
 

Além disso, os pesquisadores observaram uma mudança marcante no perfil climático das espécies que estão regenerando na floresta: a nova assembleia é dominada por espécies adaptadas a ambientes mais secos e quentes, típicas de condições de maior estresse hídrico. A afinidade climática das espécies caiu cerca de 40% ao longo do período analisado, uma redução expressiva que revela uma reorganização profunda da composição florestal. A floresta foi capaz de recuperar as características básicas de um ambiente florestal”, afirma Maracahipes. “Modelos teóricos indicavam que essas áreas poderiam se transformar em savanas. Mas o que observamos foi diferente: há pouca evidência de savanização. O que ocorre é a perda de espécies especialistas de floresta e o aumento de espécies generalistas”, completa.
 

Os autores destacam que o principal fator de degradação não é um evento isolado, mas a combinação de múltiplos distúrbios, como fogo, seca, fragmentação florestal e mudanças no uso da terra, cenário cada vez mais comum em regiões de expansão agrícola na Amazônia. 

Sobre o Serrapilheira
 

Lançado em 2017, o Instituto Serrapilheira é uma instituição privada, sem fins lucrativos, que promove a ciência no Brasil. Foi criado para valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade, ajudando a construir uma sociedade cientificamente informada e que considera as evidências científicas nas tomadas de decisões. O instituto tem três programas: Ciência, Formação em Ecologia Quantitativa e Jornalismo & Mídia. Desde o início de suas atividades, já apoiou financeiramente mais de 400 projetos de ciência e de jornalismo e mídia, com mais de R$ 120 milhões investidos.
 

Assessoria de Imprensa: Corcovado Comunicação Estratégica

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