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Estudo brasileiro sobre desinformação, plataformas digitais e IA em comunidades indígenas e quilombolas é selecionado entre as soluções da COP30

Pesquisa Territórios Digitais foi desenvolvida pela carioca Marcelle Chagas e propõe novo modelo de governança a partir do Sul Global

Com um olhar dedicado às comunidades indígenas e quilombolas, a jornalista, pesquisadora e Mozilla Tech Fellow Marcelle Chagas lançou com exclusividade o relatório “Territórios Digitais: Confiança, Desinformação e Governança da Inteligência Artificial a partir do Sul Global”. O projeto, que analisa como a desinformação, as plataformas digitais e os sistemas de inteligência artificial impactam territórios quilombolas e indígenas brasileiros, foi selecionado pelo Mutirão pela Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, iniciativa conduzida pela Secretaria de Políticas Digitais em cooperação com a Presidência da COP30 e a UNFCCC, e passou a integrar o Celeiro de Soluções da COP30.

Marcelle realizou um estudo de campo, no âmbito do programa Mozilla Tech & Society Fellowship, diretamente no Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis (RJ), e na Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos (SP), para investigar como fluxos de desinformação e sistemas digitais afetam relações de confiança, liderança comunitária e autonomia territorial.

“A governança da inteligência artificial não pode ser construída ignorando os territórios mais impactados pela desinformação, pela vigilância e pelas desigualdades digitais. O Sul Global não é apenas receptor dessas tecnologias — é produtor de conhecimento e inovação sobre como governá-las”, afirma Marcelle Chagas. 

Entre os principais dados apresentados pela pesquisa estão:

* 81% dos participantes afirmam confiar prioritariamente em lideranças comunitárias, anciãos, professores e agentes de saúde;

* 73% relatam exposição frequente a conteúdos políticos enganosos;

* 56% afirmam que narrativas falsas impactaram diretamente decisões coletivas nos territórios;

* 42% associam a inteligência artificial a riscos como a vigilância e a perda de autonomia.


Desinformação como arma territorial

Além do caso de Dona Marilda, a pesquisa documenta o que aconteceu com o Cacique Alex Ribeiro, da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra. Durante um período de atendimento médico regular na aldeia, começou a circular internamente um boato de que ele teria pedido a demissão da médica responsável pelo posto de saúde. A informação era falsa. Mas se espalhou por grupos de mensagem sem verificação de fonte.

Os efeitos foram profundos: a autoridade do Cacique foi colocada em dúvida, assembleias foram comprometidas, consensos se tornaram impossíveis. Ele adoeceu. “A desinformação fez com que ninguém mais acreditasse em mim”, relatou.

Os dois casos revelam o que a pesquisa nomeia como violência informacional territorializada: a desinformação, nesses contextos, não é apenas erro factual. É instrumento de controle político e silenciamento de lideranças — com efeitos reais sobre a segurança, a saúde emocional e a autonomia das comunidades.

O padrão é estrutural: os ataques incidem sobre quem media conflitos, articula políticas públicas, cuida da memória coletiva. Atingir essas figuras é fragilizar a infraestrutura social inteira.

OUTRAS PESQUISAS QUE RECONHECEM INICIATIVAS BRASILEIRAS
Paralelamente ao lançamento de Territórios Digitais, Marcelle Chagas também participou do processo internacional de co-design do relatório Democratic Infrastructure for AI, Intellectual Property and Culture, iniciativa apoiada pela UNESCO e voltada à construção de modelos mais democráticos e inclusivos de governança da inteligência artificial.

O documento reúne pesquisadores, especialistas e organizações internacionais que atuam na interseção entre inteligência artificial, cultura, direitos digitais e propriedade intelectual. Marcelle contribuiu com perspectivas relacionadas à governança territorial da IA, confiança digital comunitária e participação do Sul Global nos debates internacionais sobre tecnologia.

A participação da pesquisadora brasileira ocorre em um momento de crescente disputa global sobre quem define as regras da inteligência artificial e como comunidades historicamente marginalizadas podem participar da construção dessas políticas. “O debate sobre IA não pode ficar restrito a governos e grandes empresas de tecnologia. Precisamos discutir legitimidade, participação comunitária e os impactos concretos dessas tecnologias em territórios periféricos, indígenas e quilombolas”, afirma.

Sobre Marcelle Chagas

Marcelle Chagas é jornalista, pesquisadora e estrategista global em governança digital, inteligência artificial e integridade informacional. Atua como Mozilla Tech & Society Fellow e lidera pesquisas sobre desinformação, confiança digital e impactos sociotécnicos da IA em territórios periféricos, quilombolas e indígenas brasileiros. É fundadora da ComuniHub, plataforma de infraestrutura pública para colaboração jornalística e integridade informacional, além de coordenar iniciativas voltadas à proteção digital de comunicadoras negras na América Latina. Integra redes internacionais como a Columbia Leadership Network e o Women in News Global Leadership Accelerator da WAN-IFRA. Seu trabalho é reconhecido por organizações como Mozilla Foundation e Clinton Foundation.

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