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O comandante e o oficial

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um comandante, velho homem do mar, muito rígido na disciplina no seu navio, certa vez, descobriu que o seu primeiro oficial estava bêbado. Para acertar uma antiga rixa que estava em suspenso, fez questão de registrar no diário de bordo: “Ontem à noite o primeiro oficial Ribeiro estava porre”. Quando o oficial descobriu o que estava escrito, ficou com muita raiva e pensou como podia se vingar. Quando foi a vez dele de escrever o diário de bordo registrou: “Esta noite o comandante não estava bêbado”. O oficial Ribeiro escreveu a verdade, mas o fez com a intenção de prejudicar o seu superior. Deixou uma dúvida. É difícil fazer o bem, quando a nossa intenção é fazer o mal.

Um pequeno caso da vida para nos lembrar como é importante fazer o bem, mas, muito mais, fazê-lo bem feito. Se não tomamos cuidado, até o que parece um bem pode tornar-se um mal ou quase.

Vamos descobrir “o segredo” do grande bem que Jesus fazia. Neste domingo, continuamos a leitura do primeiro capítulo do evangelho de Marcos e encontramos a apresentação das jornadas de Jesus. Um primeiro lugar chama atenção: a preocupação dele com os doentes. Começa com a sogra de Pedro e continua de noite, após o pôr do sol. Deve também fechar a boca aos demônios para que não criem confusão sobre ele. Jesus parece incansável. De onde lhe vinha tanta força para fazer um bem tão grande? O segredo dele estava em levantar-se cedo, quando ainda estava escuro, e rezar. A oração, o encontro profundo e pessoal com o Pai, sustentava Jesus na sua missão. Os evangelistas não nos contam como eram as rezas de Jesus. Não só porque ele procurava ficar sozinho, mas também porque toda oração tem algo de especial: mais ou menos como cada filho e filha tem uma relação diferente, pessoal, com seus pais. Jesus, humano, pode ter rezado com as orações do seu tempo, com os Salmos e os Cânticos das Sagradas Escrituras, no entanto, como Filho muito amado, no qual o Pai tinha colocado o seu bem-querer, devia ter com ele uma intimidade única e singular.

Com certeza ele aprendia com o Pai como fazer bem todo o bem que fazia, com tanta generosidade e tamanho desprendimento. Mas Jesus não continuou por muito tempo naquele lugar. Quando os apóstolos o encontraram e lhe disseram que “todos” o procuravam, surpreende-nos o fato de Jesus decidir ir para outros lugares, às aldeias da redondeza. Porque não ficou por aí, não estava fazendo bem? Precisava mesmo se mudar? Fez bem ou fez mal ir embora?

Para os doentes daquele primeiro lugar, talvez a mesma Cafarnaum, não foi bom Jesus ter deixado a cidade. Quem ia cuidar agora dos doentes de lá? Do outro lado, porém, ganharam as outras cidades nas quais Jesus disse que “devia” pregar, porque esta era a sua missão. Ele se tornou um pregador itinerante.  Sabemos que os evangelhos não são um simples relato sobre a vida de Jesus; querem nos oferecer uma mensagem, uma boa notícia. Mais uma vez, Jesus nos mostra o caminho, ensina o jeito de cuidar das pessoas, mas não toma conta de tudo, não faz em nosso lugar, para nós ficarmos acomodados. Da mesma forma, não busca o sucesso pessoal. O bem de Jesus era feito para, justamente, mostrar-nos como fazer o bem e na melhor forma. O bem verdadeiro, quando pode, resolve sim os problemas, mas deve abrir-se para mais ações de bondade, envolver mais pessoas, estimular a criatividade do amor, da solidariedade e da partilha. Ao contrário, quem quer fazer tudo sozinho, pode fazer um bem muito bem feito, mas a obra dele acaba com ele mesmo. Também boas ações feitas para ganhar fama e prestígio ou, simplesmente, para aparecer. Continuam boas, mas não comunicam o amor, ensinam o orgulho. Sempre atraem a luz dos holofotes e os aplausos dos aproveitadores e acomodados. Mas é só isso.

Jesus deixou para nós a continuação das obras de misericórdia, para aprendermos a enxergar e a cuidar dos pobres do nosso tempo, dos novos excluídos, dos que continuam gritando à margem da estrada da vida. É do bem, bem feito, que estamos precisando.

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