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Chicoterra.com completa 25 anos: um legado de amor à Amazônia e ao jornalismo independente

Criado por Chico Terra, o primeiro blog de notícias do Amapá se tornou referência em jornalismo independente e na divulgação da cultura amazônica.

Hoje, 11 de novembro de 2025, o chicoterra.com completa 25 anos no ar. É impossível escrever essas palavras sem sentir uma mistura profunda de saudade, orgulho e gratidão. Esse site não é apenas um portal de notícias — ele é parte da minha vida, da história da comunicação no Amapá e, sobretudo, o reflexo da genialidade e da coragem do meu pai, Chico Terra.

O começo de tudo: o Amapá Busca

Quando tudo começou, ainda no fim dos anos 1990, o site se chamava Amapá Busca. A internet engatinhava, os acessos eram lentos e quase ninguém acreditava que um “blog” poderia fazer jornalismo de verdade. Mas meu pai acreditava.

Ele enxergava o futuro com uma clareza impressionante — e decidiu criar um espaço livre, independente, para noticiar o que os grandes jornais não tinham coragem de publicar.

O Amapá Busca nasceu como um grito de amor e indignação. Amor pela Amazônia, por nossa gente e por nossa cultura. Indignação diante das injustiças, das omissões, das “mazelas” que ele tanto denunciava com a pena afiada e o coração aberto.

O site acompanhou de perto momentos marcantes da história do Amapá, como a Operação Pororoca, e foi também palco para celebrar o que temos de mais bonito: nossos artistas, costumes e tradições.

Da notícia à música: o nascimento da Amazônia Brasil Rádio Web

Com o passar do tempo, o blog ganhou o nome que carrega até hoje — chicoterra.com — e ampliou seus horizontes. Meu pai, sempre inquieto, criou também a Amazônia Brasil Rádio Web, a primeira rádio web do estado.

Foram anos de uma programação feita com amor, com 24 horas de música amazônica no ar, divulgando nomes como Célio Cruz, Eliakin Rufino, Patrícia Bastos, Amadeu Cavalcante, Emília Monteiro, Zé Miguel entre tantos outros artistas consagrados do Norte e novos talentos que encontraram ali um espaço para serem ouvidos.

A primeira experiência e a formação de uma jornalista

Desde o início, o site foi feito a quatro mãos: as dele e as minhas. Comecei a ajudar com 13 anos, ainda aprendendo o valor da notícia.

O chicoterra.com foi meu primeiro emprego, minha primeira escola, e mais tarde, o motivo pelo qual escolhi o jornalismo como profissão. Cresci vendo meu pai trabalhar sem descanso, muitas vezes virando noites para manter o site no ar — com um amor que não cabia em si.

Mesmo com todas as dificuldades de se manter um projeto independente, ele nunca desistiu. E o reconhecimento veio: o site se tornou o mais premiado portal de notícias do Amapá, com conquistas como Top3 Ibest (2012), Tucuju de Ouro (2015), Troféu Imprensa (2018) e Top Of Mind (2019). Além disso, o projeto sempre contou com o apoio de amigos e admiradores do trabalho dele, a quem sou imensamente grata.

A Baiúca

Como forma de alternativa para sustento do site, paralelamente, Chico abriu a Baíuca do Chico Terra, onde comercializava livros, CD’S e DVD’S de artistas e escritores do Norte. A Baiúca era um ponto de encontro, foi local de saraus, noites de viola, bate papo e gente boa, que apoiava e admirava meu pai.

A missão de divulgar a Amazônia para o mundo

Mais do que prêmios, o que movia meu pai era o propósito. Ele dizia que o chicoterra.com existia para mostrar a Amazônia ao mundo — para que as pessoas conhecessem nossa arte, nossa cultura e nossa luta.

Ele acreditava que comunicar era um ato de resistência, e que dar voz à Amazônia era, também, uma forma de protegê-la.

A perda da visão e a transição de um sonho

Em 2023, após uma cirurgia malsucedida, meu pai perdeu a visão. Foi um golpe duro, mas mesmo assim, não se afastou completamente. Passou a gestão do site para mim, e seguiu colaborando quando podia, de forma mais silenciosa — mas sempre com o coração presente.

Eu via nele uma tristeza, porque o chicoterra.com era mais que um trabalho: era sua vida.

O último pedido

No dia 8 de janeiro de 2025, meu pai partiu, vítima de um infarto. Dois dias antes, já sentindo que seu tempo estava chegando ao fim, ele me chamou e disse algo que jamais esquecerei:

“Filha, não deixa o site morrer. Conto com você pra seguir essa missão divulgando as notícias da Amazônia, dos nossos artistas, da nossa cultura.”

Essas palavras ficaram gravadas em mim. E desde então, são elas que me guiam.

O legado que permanece

Foto: Aog Rocha

Hoje, escrevo essa homenagem com lágrimas nos olhos e o coração cheio de amor. O chicoterra.com vive. Vive em cada texto, em cada foto, em cada notícia que divulga o que somos. Vive em mim, que sigo honrando o que ele começou.

Meu pai foi um visionário, um artista completo e um comunicador nato. Criou, sonhou e transformou — tudo com o mesmo propósito: dar voz à Amazônia e ao seu povo.

Nesses 25 anos, o site mudou de formato, se reinventou várias vezes, mas nunca perdeu sua essência. Ele continua sendo o que sempre foi: independente, amazônico e profundamente humano.

Hoje, celebro não apenas os 25 anos do chicoterra.com, mas a vida e o legado de Chico Terra, meu pai.
Um homem que acreditava que comunicar é um ato de amor.
E é com esse amor que eu prometo continuar — por ele, por mim e pela Amazônia.

Foto de capa: Flávio Cavalcante

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