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O legado de seu Duquinha e a ciência que estuda a regeneração da floresta na Amazônia 

Em Capitão Poço (PA), o exemplo de um agricultor de 93 anos que recuperou 56 hectares de mata nativa vira base para estudo inédito com torres de monitoramento climático em capoeiras – as florestas secundárias da Amazônia.

Texto de Natália Mello. Revisão de Carla Fischer. Imagens de Marcio Nagano.

Um refúgio de vida humana e silvestre no município de Capitão Poço, no nordeste do Pará, abriga um marco para a ciência regional: a primeira torre de monitoramento climático instalada em uma floresta secundária na Amazônia. Instalada em 2026, a estrutura de 20 metros de altura monitora a área de 56 hectares, que se tornou um laboratório vivo e estratégico para ações que ajudam na mitigação dos impactos climáticos no estado, ao criar corredores ecológicos, proteger o solo contra a erosão e regular o ciclo da água, aumentando sensivelmente a resiliência do ecossistema local.

Torre com 20 metros de altura monitora a área de 56 hectares em Capitão Poço – Crédito: Marcio Nagano

Para entender como o território alcançou esse patamar, é preciso voltar pouco mais de 30 anos no tempo e conhecer a história de um guardião da floresta de passos largos e firmes, moldados por mais de nove décadas de intimidade com a terra. Manoel Geraldo de Carvalho, mais conhecido como seu Duquinha, tem uma grandiosidade inversamente proporcional ao seu tamanho físico. Essa grandeza se reflete na missão escolhida por ele mesmo para a sua vida e para os filhos, netos, bisnetos, que formam mais de 200 pessoas na sua linha de sucessão: a de parar de desmatar e começar a proteger.

Onde os olhos de quem passava pelo local enxergavam uma área de roçado e a pele sentia a atmosfera nublada de fumaça devido às queimadas, agora é possível experimentar um clima refrigerado ao caminhar por entre as árvores. O riacho que não mais vingava voltou a ser uma nascente depois do plantio de cerca de 30 mil mudas, entre castanheiras, jatobás e outras árvores frutíferas, como piquiás e bacurizeiros.

Seu Duquinha, ao lado da esposa, Luiza Bezerra – Crédito: Marcio Nagano

“Quando a gente chegou aqui, fazia tempo que aquele riachinho que é nascente não segurava; secava. A mata ciliar* estava muito degradada, então fomos fazendo a restauração. Hoje já está com um bom tempo que ele não seca”, lembra seu Duquinha, ao lado da esposa, Luiza Bezerra, sua companheira de jornada há 66 anos e com quem construiu a numerosa descendência.

Para dona Luiza, o sítio que o casal ergueu junto é um privilégio nos dias de hoje, um verdadeiro oásis que vai contra a corrente do desmatamento. O orgulho pelo chão protegido só compete com o tamanho do amor pela família que ajudou a criar – e da qual ela faz questão de listar, de cabeça e num fôlego só, os nomes de batismo dos filhos, numa rima afetuosa que revela a força dessa espécie de clã familiar.

“Me sinto feliz demais, porque hoje em dia para se achar um lugar como esse é raro, porque em todo canto o pessoal só pensa em desmatar, em fazer roçado, fazer capinzal”, emociona-se dona Luiza.

Sobre a prole, ela faz questão de dizer os nomes: “Geraldo, Genaldo, Genário, Genadio, Genebaldo, Gesseraldo, Genivaldo, Marilene, Margarete, Marizete e Laína. E o Igor, que é neto, mas nós criamos e são nossos filhos, é nosso filho”, orgulha-se a matriarca.

A mesma motivação é compartilhada pelo patriarca, que sempre quis garantir como herança às próximas gerações uma floresta com vida, e não uma terra de cinzas. A colheita desse plantio pode ser vista correndo e voando pela área: cutias, veados, guaribas, ou macacos bugios, além de diversos pássaros, agora dividem o terreno com essa família.

*Mata ciliar: vegetação nativa que fica às margens de rios, lagos, nascentes e represas, funcionando como uma proteção para os cursos d’água.

“Boa Vida, Farinha Acabou e Paciência”

A ligação de seu Duquinha com a terra começou muito antes – ele fincou raízes nas proximidades quando Capitão Poço sequer existia como município. Ainda na infância, ele deixou a vizinha Ourém – uma das vilas mais antigas da região nordeste – para acompanhar o pai e os tios em uma jornada que mudaria o destino da família.

O que começou como uma temporada de caça nas matas da comunidade de Nova Colônia precedia, na verdade, uma nova vida. Ao decidirem se mudar definitivamente para a mata, os pioneiros lotearam os terrenos vizinhos. Com o mesmo humor e simplicidade com que seu Duquinha se apropriou para resgatar essas memórias, batizaram os sítios, de acordo com o que o momento oferecia.

“Dormindo no mato, meu pai e meus dois tios falaram: ‘vamos se mudar para cá’. Naquele dia, tinha acabado a farinha do acampamento e a gente tinha que ir embora. Aí o tio mais velho disse: ‘o meu terreno vai ser esse aqui e vai se chamar Boa Vida’. O outro tio disse: ‘o meu vai ser abaixo do seu e vai ser Farinha Acabou’, porque a farinha tinha acabado mesmo. Aí o papai escolheu o dele logo abaixo e meu tio disse para ele: ‘o seu vai ser Paciência’. Ficou Boa Vida, Farinha Acabou e Paciência”, e foram as três primeiras casas feitas em Nova Colônia, recorda seu Duquinha.

Anos depois, durante outra caçada em que se perdeu na mata, o jovem Duquinha acabou dormindo exatamente no local onde hoje pulsa a cidade de Capitão Poço. Foi naquele mesmo chão onde passou a noite perdido que ele, após o casamento, fincou sua primeira casa e viu seus filhos nascerem, antes de finalmente se mudar para a área que protege até hoje.

Do serviço público a um chamado familiar

Antes de se tornar uma referência em conservação, a trajetória de seu Duquinha cruzou caminhos que moldaram a sua visão de mundo. O homem que hoje cuida da terra e ainda olha por seus familiares já foi o responsável por registrar e documentar a vida de milhares de pessoas na região. Alfabetizado por meio de uma escola radiofônica e, posteriormente, finalizado o ensino médio, ele ingressou no serviço público e atuou como escrivão de polícia em Capitão Poço e Ourém. Pela Secretaria de Segurança Pública (SEGUP), viajou por diversas colônias emitindo carteiras de identidade e de trabalho, além de ter liderado a comunidade local como presidente de cooperativa.

O apego com o cultivo sempre esteve ali, desde os tempos em que plantava arroz, milho e pimenta para sustentar a família. Foi plantando e vendendo malva que ele garantiu o enxoval do casamento com a companheira que ele orgulhosamente chama de “a mulher mais bonita do mundo”. No entanto, o plano de transformar a antiga área de roçado em um refúgio verde ganhou um propósito definitivo graças a um dos seus 12 filhos, o padre Geraldo, que atende pela alcunha de “Gerê”.

Capoeira vs. SAF: Qual é a diferença?

Capoeira (Regeneração Natural): É a floresta que nasce inteiramente sozinha após o abandono de uma área de pasto ou roçado. A própria natureza se encarrega de cicatrizar a terra, trazendo de volta as espécies nativas ao longo dos anos, de forma espontânea e sem um objetivo econômico direto ou foco na produção de alimentos.

SAF (Sistema Agroflorestal): É uma floresta planejada, assistida e manejada pela ação humana. Em vez de apostar em uma única cultura (monocultura), o agricultor combina intencionalmente árvores nativas com plantas alimentícias e comerciais (como cacau, açaí, banana e essências florestais), unindo a restauração ecológica do solo com a geração de renda para as famílias do campo.

A guinada para a recuperação da área

Foi o filho sacerdote quem teve o estalo de mudança e incentivou o pai a parar de desmatar e focar na preservação daquela área, dando início ao projeto que hoje une a sabedoria do patriarca à tecnologia da torre de monitoramento climatico. Essa é uma das principais frentes de estudo do Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia (Capoeira) em conjunto com o projeto Enabling large-scale and climate-resilient forest restoration in the Eastern Amazon, do Global Centre on Biodiversity for Climate (GCBC). A iniciativa voltada para a recuperação de ecossistemas desmatados e degradados no bioma amazônico é coordenada pela Embrapa, sediada no Pará e integra mais de 180 pesquisadores de 33 instituições.

Mais do que um legado para o futuro da região, os 56 hectares (área equivalente, aproximadamente, ao tamanho do Parque da Cidade, em Belém) de floresta representam a herança material e espiritual que seu Duquinha deixa para os seus. Consciente do peso dos anos, o agricultor faz questão de lembrar os filhos e filhas de que a missão não termina com ele. Na verdade, perpetuar esse pensamento de conservação é o verdadeiro sentido de tudo o que foi construído, já que a terra passará de geração em geração, e que a responsabilidade de manter a floresta de pé é o que garante a continuidade da própria família naquele território.

“O prazer que eu tenho é de, aos 93 anos, estar mostrando para vocês o que eu fiz na minha vida, o que eu preservei. Eu desmatei, mas depois preservei, plantei, recuperei. O que eu construí hoje estou aqui mostrando para vocês”, compartilha.

O patriarca também reforça a continuidade do seu trabalho pelas novas gerações. “Sigam esse meu exemplo. Agora vocês já são técnicos, são doutores no assunto, são formados. Tomem conta disso e levem para frente, passem a mensagem”.

Ao ser questionado se toda uma vida dedicada a esse chão valeu a pena, seu Duquinha não hesita. Com o olhar de quem enxerga décadas à frente, ele resume o valor de sua obra na certeza de que aquele refúgio será, para sempre, uma memória viva da Amazônia, além de um lugar de acolhimento para a sua imensa linhagem e uma lição para as próximas gerações do mundo. “Quando vierem os seus netos que não conhecerem mata, aí vocês vêm aqui e a gente mostra a mata para eles”, finaliza o guardião.

Aquele ditado “a palavra convence; o exemplo arrasta” nunca fez tanto sentido como na família de seu Duquinha e dona Luiza. As escolhas do casal não apenas moldaram uma parte da paisagem de Capitão Poço, mas também definiram o destino profissional da geração seguinte da família. Criada pelos avós desde o nascimento como uma filha, a bióloga Laína Carvalho, de 33 anos, cresceu correndo entre as árvores da propriedade, batizada de Reserva Ecológica São Geraldo Magela. Esse contato precoce com a terra guiou a direção de seus passos: hoje, ela é doutoranda em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e estuda justamente o ecossistema que a viu crescer.

“Eu sempre tive vontade de fazer alguma coisa que trouxesse retorno à reserva”, conta Laína. Se seu Duquinha aprendeu a recuperar a floresta na prática, agora no doutorado, Laína dedica seus dias a decifrar a matemática desse processo através da ecologia. Sua pesquisa foca em quantificar a capacidade da floresta de produzir e armazenar sua própria energia nas famosas capoeiras, buscando entender como essas áreas gerenciam sua energia em tempos de extremos climáticos, como secas severas ou chuvas concentradas.

“A planta recebe energia pela fotossíntese. Parte dela usa para crescer e se recuperar, e a energia que sobra é distribuída para o tronco, folhas e raízes. Meu trabalho é entender como essa distribuição acontece ao longo dos anos. Analiso desde capoeiras jovens até mais antigas, de 15 até 60 anos, incluindo a floresta primária intacta, onde o Centro Capoeira instalou, recentemente, outra torre de monitoramento”, explica a pesquisadora.

Para medir essa engrenagem viva, a cientista não olha apenas para o topo da torre, mas para o que cai no chão. A metodologia envolve coletar e analisar a “serrapilheira”, uma camada de folhas, galhos e frutos que cobre o solo, além de calcular até mesmo a perda de energia provocada por insetos que se alimentam das folhas (a herbivoria).

Esse monitoramento minucioso do funcionamento da floresta ajuda a prever como a natureza reage para sobreviver. Para Laína, ao identificar os momentos de seca em que a floresta investe mais energia para esticar as raízes em busca de água profunda, ou aqueles em que derruba as folhas para não desidratar, se torna possível criar estratégias melhores de conservação.

“As florestas primárias estão se perdendo com muita frequência. Precisamos proteger as secundárias, que se regeneram sozinhas e são fundamentais para estocar carbono, regular as chuvas e frear as mudanças climáticas que já estamos sentindo na pele”, defende Laína.

Duas torres, duas florestas: a ciência que olha o céu e o chão

Para dar conta de monitorar um ciclo de vida tão complexo, que vai das capoeiras mais jovens à mata mais antiga, a pesquisa de Laína conta com um reforço de peso em outra área: uma segunda torre de monitoramento ainda maior, com 40 metros de altura, foi instalada em uma floresta primária localizada dentro de um sítio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca (Sedap) em Capitão Poço.

Enquanto a primeira estrutura acompanha a regeneração da capoeira, a torre maior vigia um fragmento de 500 hectares de floresta primária intacta, uma área equivalente a 500 campos de futebol de mata nativa que serve de espelho para a ciência e torna possível monitorar por cima das copas das árvores mais altas da região. É nessa intersecção entre a floresta que se regenera e a que permaneceu de pé que a bióloga caminha ao lado do seu co-orientador de doutorado, o pesquisador Fernando Elias da Silva – Museu Paraense Emílio Goeldi.

Crédito: Natália Mello*

InfoAmazônia

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