Dom Pedro José Conti: Esconde-esconde

O netinho brincava de esconde-esconde com um colega. Ele se escondeu muito bem e ficou esperando que o amigo fosse procurá-lo. Depois de ter aguardado por um bom tempo, o menino saiu do esconderijo e foi atrás do amigo. Este, de fato, nunca o tinha procurado. O menino ficou muito triste. Correu com o avô e reclamou do colega que tinha abandonado a brincadeira. O avô, homem sábio, quis ajudar o neto e disse:
 – Meu filho, sabe que Deus diz o mesmo de nós seres humanos? Deus diz: eu me escondo, sim, mas ninguém vem me procurar! 
Nos domingos do Tempo Pascal, deste ano, só encontraremos trechos do Evangelho de João. Neste Segundo Domingo, a leitura é sempre a das duas primeiras “aparições” do Senhor Ressuscitado. Uma “ao anoitecer do primeiro dia da semana” e a outra “oito dias depois” (Jo 20,19 e 26). O sentido é, evidentemente, o de nos ajudar a entender o ritmo semanal da comunidade cristã que fez do dia após o sábado, ou seja, o “domingo”, o novo “dia do Senhor”. Entre tantas coisas que deveriam distinguir os seguidores de Jesus, uma das principais é o compromisso de “santificar” o domingo.Ainda em 1998, São João Paulo II escreveu uma Carta Apostólica sobre o Dia do Senhor (Dies Domini, em latim). O Santo Padre queria lembrar aos cristãos o sentido e o valor do Domingo. Vivemos numa sociedade cheia de afazeres, compromissos, correrias, mas, também, de lazer e diversões. Para muitos, cristãos e não, os finais de semana se tornaram o único tempo para descansar, fazer algo diferente da rotina cotidiana, ou resolver questões de arrumação e limpeza que não foram feitas ao longo da semana. O descanso é, igualmente, um direito e uma necessidade. Precisamos de um tempo para nós e as nossas famílias. É urgente conversar entre nós, até “jogar fora” umas horas para ficarmos juntos, apreciar a presença das pessoas que amamos ou consideramos amigas.
Honestamente, devemos nos perguntar se sobra tempo para Deus e para os irmãos e irmãs que partilham a nossa fé. Não é questão de cumprir uma obrigação, mas de procurar conhecer melhor o Senhor, deixar ecoar a sua Palavra em nossa vida, experimentar a sua presença viva no meio de nós. Após dois anos de pandemia, durante os quais as igrejas ficaram fechadas ou com número limitado de participantes, muitos cristãos se acostumaram a “assistir” à missa pela televisão, com farta opção de pregadores e super oferta de celebrações, orações e ladainhas a qualquer hora do dia. Outros, porém, sentiram falta das liturgias nas suas comunidades, com os amigos e os vizinhos. Com certeza, as nossas liturgias não são tão tocantes como certas transmissões televisivas e os sermões tão emocionantes como aqueles dos pregadores badalados na mídia. Não são e nem devem ser assim. O Dia do Senhor é para ser vivido na simplicidade e na pobreza da nossa condição humana, lá onde nós estamos, com os companheiros de viagem que encontramos no caminho e com os obstáculos que somos chamados a remover. Nas cidades, onde têm  mais oferta de missas dominicais, não deveríamos escolher simplesmente pelo gosto ou a simpatia, mas pela aproximação com aquelas pessoas que depois encontraremos nas ruas e nas praças do bairro, no trabalho, no ônibus, no colégio, no supermercado.
O Domingo é o Dia do Senhor, mas também da comunidade, da solidariedade com os pobres que precisam de ajuda. Talvez aqueles pobres perto da nossa casa que não vêm na igreja por vergonha da sua roupa ou porque, também aos domingos, estão atrás de pôr algo na mesa para os seus filhos. Os sofredores são outra presença de Jesus entre nós, que nos incomoda e questiona, como a sua Palavra e a Eucaristia. O apóstolo Tomé faltou no primeiro domingo, mas no segundo estava lá, ainda incrédulo e desconfiado. No entanto, declarou o seu desejo de ver e tocar. Deus procura o ser humano desde o início, quando perguntou: “Adão onde estás?”. Ele nunca desiste. Somos nós os maus jogadores que abandonam a busca. Assim não encontramos a Deus e nem nos deixamos encontrar com ele. 

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