Amazônia

Povos indígenas no centro da resistência: 19 de abril destaca identidade, cultura e protagonismo do povo Xikrin, do Pará

Enquanto o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas, os Mẽbêngôkre Xikrin reafirmam sua força cultural e autonomia política em evento especial no Pará — com esporte, arte, língua e memória como instrumentos de resistência e futuro. 

No próximo dia 19 de abril, quando o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas, o país se volta à ancestralidade e à diversidade cultural dos mais de 300 povos originários que seguem vivos, atuantes e em luta por seus territórios e direitos. No Pará, uma das histórias mais emblemáticas deste ano vem do povo Mẽbêngôkre Xikrin, que promove em Altamira um evento aberto ao público que une tradição, inovação e reivindicação de espaço — dentro e fora da floresta.


Mais do que uma data simbólica, o 19 de abril marca um momento de visibilidade e reivindicação. No caso dos Xikrin, significa reafirmar que seus saberes, sua língua e sua cultura não são passado, mas presente e futuro. A celebração é organizada pela Associação Indígena Berê Xikrin da Terra Indígena Bacajá, e propõe uma reflexão sobre o direito à identidade, ao território e à autonomia por meio de manifestações artísticas, esportivas e audiovisuais.


Entre as ações que acontecem na data está o lançamento do documentário “Raízes da Celebração”, um filme de 30 minutos inteiramente narrado em língua Xikrin, que retrata a Festa da Mandioca (Kwyrykangô) — um ritual de fertilidade, partilha e reconhecimento das mulheres indígenas como pilar da cultura e da vida na aldeia. Diferente de registros etnográficos convencionais, o documentário é protagonizado e produzido com participação ativa da própria comunidade, revelando um olhar de dentro, sem intermediários, sobre os significados da tradição. A obra conta com o apoio do Itaú Cultural e da Equatorial Energia, via Lei Rouanet.


Outro marco do dia será a assinatura oficial do patrocínio da Transpetro ao projeto esportivo Kukràdjá Xikrin, que vai incentivar a prática de jogos tradicionais — como arco e flecha, corrida e pau de sebo — além do futebol, entre as 13 aldeias representadas pela associação. Mais que competição, o esporte para os Xikrin é espaço de convívio, cuidado e pertencimento. “Quando nossos jovens praticam esses esportes, eles não estão apenas se movimentando. Estão se conectando com os nossos antepassados, aprendendo o valor da coletividade e da cultura. Isso é resistência”, afirma Bep Kamaty Xikrin, presidente da associação.

O presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, destaca a capilaridade do edital de patrocínios da companhia por todo o território nacional, permitindo a circulação e a valorização do patrimônio cultural brasileiro, como os costumes ancestrais do povo Xikrin. “Nossa ação visa à promoção de esportes tradicionais e contemporâneos da etnia Mẽbêngôkre Xikrin, com gestão e liderança da própria comunidade e conexão entre diferentes públicos e idades. A Transpetro é entusiasta da valorização dos povos originários brasileiros e busca a preservação da cultura e da história que essa população carrega”, afirma Bacci.

Em um cenário de intensas ameaças territoriais, avanço de projetos extrativistas e impactos ambientais causados por grandes obras — como a construção da Usina de Belo Monte, que afetou diretamente o modo de vida das comunidades Xikrin —, ações como essa ganham importância simbólica e política. O povo Xikrin continua lutando, comunicando-se com o mundo em sua própria língua e moldando seu futuro com autonomia.


“A visibilidade é importante, mas o protagonismo é fundamental. Hoje não é o outro falando sobre nós. É o povo indígena dizendo quem é, com orgulho e voz própria. A tecnologia agora está a nosso favor, e queremos deixar registrado para nossos filhos e netos aquilo que os antigos nos ensinaram apenas pela oralidade”, reforça Bep.


O evento será realizado no Teatro Municipal Jarbas Passarinho, em Altamira, reunindo a comunidade indígena, representantes de instituições culturais, imprensa, convidados e o público local.

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Sobre o Dia dos Povos Indígenas no Brasil 


Celebrado em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas é mais do que uma data simbólica — é um chamado à valorização, respeito e visibilidade das mais de 300 etnias indígenas que vivem em território brasileiro. A data, criada originalmente como “Dia do Índio” em 1943, foi atualizada oficialmente em 2022 para reconhecer a pluralidade cultural, histórica e política dos povos originários, reforçando sua identidade como sujeitos de direitos, saberes e protagonismo.


Em vez de uma celebração folclórica ou reducionista, o 19 de abril representa um espaço de escuta, reconhecimento e reparação histórica, diante de séculos de apagamento, violência e resistência. É um momento de exaltar não apenas a riqueza das línguas, rituais, arte e cosmovisões indígenas, mas também a força das lideranças contemporâneas, das juventudes que defendem seus territórios e das culturas que seguem vivas, mesmo diante das pressões do mundo moderno.


Celebrar esse dia com a presença, a fala e a arte dos próprios povos indígenas — como faz o povo Xikrin neste evento — é uma forma de romper estereótipos, construir pontes entre mundos e reafirmar que a história do Brasil é inseparável da história de seus povos originários.
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Sobre os Mẽbêngôkre Xikrin 

Os Mẽbêngôkre Xikrin são um dos povos indígenas do Brasil que, por gerações, têm preservado sua cultura, seu território e seu modo de vida. Habitantes da Terra Indígena Trincheira Bacajá, no Pará, os Xikrin são conhecidos por sua forte conexão com a natureza, suas tradições e seu espírito coletivo. Mais do que um povo com um passado rico, são protagonistas do presente, reafirmando diariamente sua identidade e enfrentando desafios impostos pelo avanço da sociedade não indígena.

Diferente da sociedade ocidental, os Xikrin não vivem sob a lógica do relógio. Seu tempo é regido pelos ciclos da natureza, pelos rios, pela caça e pela plantação. A vida na aldeia segue um ritmo próprio, no qual o coletivo tem papel essencial. Se um come, todos comem. Os alimentos e bebidas são sempre compartilhados, fortalecendo o espírito comunitário que caracteriza esse povo.

A transmissão do conhecimento se dá pela oralidade e pela prática. As crianças aprendem observando os mais velhos, participando do dia a dia e se envolvendo nos rituais e festividades. A pintura corporal, os adornos e os cantos são expressões culturais carregadas de significados, que reforçam a identidade e a conexão com os ancestrais.

Entre as tradições mais importantes do povo Mẽbêngôkre Xikrin está a Festa da Mandioca (Kwyrykangô), uma celebração de grande significado para a comunidade. Mais do que um evento, a festa simboliza a fertilidade da terra, a valorização das mulheres e a partilha de saberes ancestrais. Durante dias, a aldeia se mobiliza para cantar, dançar, preparar alimentos e reafirmar sua identidade cultural. A mandioca, alimento base da dieta Xikrin, é reverenciada como símbolo de fartura e sobrevivência.

Apesar da riqueza cultural e da força de sua organização social, os Xikrin enfrentam desafios cada vez maiores. A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte trouxe impactos significativos para seu território, afetando a dinâmica dos rios e da fauna, elementos essenciais para sua sobrevivência. Além disso, o avanço de atividades extrativistas impõe constantes ameaças à preservação da floresta e ao modo de vida tradicional.

Mesmo diante dessas adversidades, os Xikrins seguem resistindo. Buscam, por meio de projetos e parcerias, fortalecer sua autonomia, preservar sua cultura e garantir que as futuras gerações possam viver conforme suas tradições.

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Um Olhar Livre de Estereótipos 

Ao falar sobre os Xikrins, ou qualquer outra etnia indígena, é essencial evitar estereótipos que reduzem os povos indígenas a imagens ultrapassadas, pejorativas e equivocadas. Eles não são povos do passado, mas sim sociedades vivas, com saberes sofisticados e modos de organização exemplares. Seu conhecimento sobre a floresta e sua coletividade são lições valiosas que a sociedade não indígena tem muito a aprender. A relação do indígena com o tempo é diferente do padrão do “kuben” (homem branco) e em tempos de discussão sobre saúde mental é algo que muito tem para ser observado e aprendido.  

“Dar visibilidade ao povo Mẽbêngôkre Xikrin é reconhecer sua importância e fortalecer a luta por seus direitos. Preservar sua cultura não é apenas um compromisso com o passado, mas um investimento no futuro da diversidade e da identidade brasileira“, garante Beb Kamati Xikrin, Presidente da Associação Indígena Bere Xikrin da TI Bacajá.

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Sobre o Programa Transpetro em Movimento 

O Programa Transpetro em Movimento impacta positivamente quase 300 mil pessoas em 55 municípios brasileiros, em todas as regiões do país, e é uma parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério do Esporte, por meio da Lei Rouanet e da Lei Federal de Incentivo ao Esporte.

Com capilaridade nacional, o primeiro edital público de patrocínio incentivado da Transpetro valoriza e promove a circulação de traços culturais brasileiros e a formação profissional, fortalecendo a diversidade e estimulando a inclusão de públicos menorizados ou em situação de vulnerabilidade. Mais de 80% dos projetos contemplados acontecem em comunidades tradicionais ou em áreas de periferia, com público prioritário formado em sua maioria por crianças e adolescentes.

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SERVIÇO 

Dia dos Povos Indígenas – Associação Indígena Berê Xikrin da Terra Indígena Bacajá 
Data: 19 de Abril
Local: Teatro Jarbas Passarinho – Travessa Treze de Maio, 201 – Jardim Uirapuru, ao lado do Cinema Lúcio Mauro
Inicio do evento Dia dos Povos Indígenas: 9h
Assinatura do patrocínio da Transpetro ao projeto esportivo Kukràdjá Xikrin: 14h
Lançamento documentário: 19h30

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