Livro que reúne saberes do povo Wajãpi sobre 36 espécies de abelhas nativas da Amazônia será lançado
Publicação coletiva construída por jovens, agentes socioambientais e professores indígenas será lançada no Rio e em Angra dos Reis, destacando biodiversidade, conhecimento tradicional e defesa da floresta
A Fundação Heinrich Böll e o Instituto Iepé lançam o livro “Saberes Wajãpi e abelhas nativas”, uma publicação coletiva que reúne conhecimentos do povo Wajãpi sobre as abelhas sem ferrão produtoras de mel na Terra Indígena Wajãpi (AP). A obra é resultado de um processo de pesquisa, sistematização e reflexão conduzido por jovens, agentes socioambientais, professores e conhecedores indígenas.
“Neste livro, os Wajãpi nos apresentam 36 tipos de abelhas que vivem em seu território. Trinta e seis espécies preservadas em uma única terra indígena, enquanto em muitas regiões do mundo as abelhas desapareceram por causa do uso de pesticidas e da destruição ambiental. Essa diversidade é um símbolo da riqueza da Amazônia e da importância dos povos indígenas na sua proteção. Reconhecer esses saberes é também reconhecer que existem muitas formas legítimas de produzir conhecimento — e que precisamos aprender com elas para garantir o futuro da floresta e da vida.” — Regine Schoenenberg, diretora da Fundação Heinrich Böll no Brasil
O livro apresenta um levantamento detalhado de 36 tipos de abelhas — chamadas pelos Wajãpi de eirã —, descrevendo suas características, habitats, formas de organização, tipos de mel, e, principalmente, as regras culturais e espirituais que orientam a relação com esses seres. Mais do que um inventário biológico, a publicação revela um sistema complexo de conhecimento, que integra biodiversidade, cosmologia, saúde, alimentação e manejo sustentável do território.

Ao registrar esses saberes em dois volumes — em língua portuguesa e em língua Wajãpi —, a obra também responde a um contexto global de ameaça às abelhas, causado pelo desmatamento, queimadas, monoculturas extensivas e uso de agrotóxicos. Enquanto vastas regiões do mundo enfrentam o desaparecimento desses polinizadores, a Terra Indígena Wajãpi mantém uma diversidade impressionante de espécies, preservadas graças à proteção da floresta, e ao conhecimento tradicional.
O processo de elaboração do livro teve como ponto de partida oficinas realizadas na própria Terra Indígena Wajãpi, no Amapá. A iniciativa surgiu inicialmente para subsidiar experiências de criação de abelhas nativas, como parte das ações de gestão territorial e ambiental desenvolvidas pelo Instituto Iepé em parceria com organizações Wajãpi. Ao longo do trabalho, a riqueza e a profundidade dos conhecimentos compartilhados motivaram a construção da publicação.
“Essa publicação sobre abelhas se insere em um conjunto mais amplo de ações desenvolvidas pelo Iepé para apoiar os esforços dos Wajãpi no sentido de valorizar, fortalecer e fazer respeitar seus conhecimentos, práticas e modos de vida. Ela resulta da realização, registro e sistematização de pesquisas de autoria indígena, que envolvem novas formas de transmissão de saberes entre os próprios Wajãpi, em novos contextos, ao mesmo tempo em que geram produtos para divulgação externa e interna. Além de materiais em português, a produção de materiais escritos e audiovisuais na língua wajãpi é fundamental para o fortalecimento e sobrevivência desta língua indígena.” Lucia Szmrecsányi, coordenadora do Programa Wajãpi, do Instituto Iepé.
Além do lançamento no Rio de Janeiro, a programação inclui um intercâmbio de saberes entre representantes dos povos Wajãpi e Guarani Mbyá, na Aldeia Sapukai, em Angra dos Reis (RJ). Na ocasião, haverá roda de conversa, apresentação cultural e visita às abelhas, promovendo o diálogo entre territórios, gerações e modos de vida. Na aldeia, o trabalho com abelhas sem ferrão também se conecta ao fortalecimento cultural e a iniciativas voltadas à juventude e ao bem-estar comunitário.
Os encontros marcam não apenas o lançamento de um livro, mas a celebração de conhecimentos que articulam floresta, cultura e futuro. Em um momento de crise climática e perda acelerada da biodiversidade, os saberes Wajãpi reafirmam que proteger as abelhas é também proteger a vida.
SERVIÇO
Lançamento no Rio de Janeiro
Evento: Lançamento do livro Saberes Wajãpi
Data: 25 de fevereiro (quarta-feira)
Horário: 17h30 às 22h
Local: Fundação Heinrich Böll – Rua da Glória, 190, sala 701 – Glória – Rio de Janeiro
Programação: Roda de conversa com representantes do povo Wajãpi, editores e parceiros, seguida de confraternização
Confirmação de presença: info@br.boell.org
Vagas limitadas
Lançamento em Angra dos Reis (RJ)
Evento: Intercâmbio de Saberes – Guarani & Wajãpi | Lançamento do livro
Data: 27 de fevereiro (sexta-feira)
Local: Aldeia Sapukai – Bracuí – Angra dos Reis/RJ
Programação:
8h – Café da manhã
9h – Apresentação cultural
10h – Lançamento do livro e roda de conversa
12h – Almoço
14h – Visita às abelhas e troca de saberes
16h – Lanche e encerramento
Sobre a Fundação Heinrich Böll
A Fundação Heinrich Böll é uma organização política alemã, presente em mais de 35 países e conectada ao Partido Verde da Alemanha. Seus escritórios na América Latina têm um compromisso especial com as organizações da sociedade civil do campo crítico porque acreditam que essas são fundamentais para o fortalecimento democrático. Promover diálogos pela democracia e buscar a garantia dos direitos humanos; atuar em defesa da justiça socioambiental; defender os direitos das mulheres e se posicionar como antirracista são os valores que impulsionam as ideias e ações da Fundação. No Brasil, a organização apoia projetos de diversas organizações da sociedade civil, organiza debates e produz publicações gratuitas. No campo da justiça socioambiental, busca fortalecer o debate público que alie a defesa do meio ambiente com a garantia dos direitos dos povos do campo e da floresta.
Sobre Instituto Iepé
O Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, fundada em 2002. Sua missão é contribuir para o fortalecimento cultural e político dos povos indígenas no Amapá, norte do Pará e divisas com Roraima e Amazonas, para a gestão comunitária e coletiva dos seus territórios, com desenvolvimento sustentável e direitos reconhecidos, empregando estratégias colaborativas em redes, articulações e coletivos nacionais e Pan-Amazônicos. Entre os principais objetivos do trabalho do Iepé estão a valorização e o fortalecimento dos modos de vida, das formas de conhecimentos e práticas indígenas locais e das formas de organização e representação política dos povos indígenas; e a articulação de redes interinstitucionais para a defesa dos direitos socioambientais, para o desenvolvimento sustentável das áreas protegidas e para a conservação do bioma da Amazônia e de seus serviços ecossistêmicos.

