Em Brasília, indígenas cobram diálogo com Lula para enfrentar pressões sobre territórios
Por Fábio Bispo
Unidos diante da pressão crescente do agronegócio, de grandes obras de infraestrutura e da expansão da mineração e do petróleo sobre seus territórios, indígenas de mais de 300 povos de todas as regiões do país começam a ocupar Brasília apartir desta segunda-feira (6), na 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Até o dia 11, o encontro deve reunir 7 mil participantes, com duas grandes marchas previstas e a expectativa de um novo acerto político com o governo do presidente Lula(PT).
Principal mobilização indígena do país, o ATL de 2026 ocorre em meio à intensificação dos conflitos territoriais e à reorganização do movimento diante de novas pressões políticas e econômicas. Lideranças denunciam que o avanço doagronegócio, de grandes empreendimentos e da mineração amplia as tensões e pressiona os territórios indígenas.
Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o encontro retoma a essência da mobilização iniciada no começo dos anos 2000, quando cobrou a demarcação de terras. A pauta segue no centro dasreivindicações.“Nosso futuro não está à venda, a resposta somos nós. É um recado de que vamos continuar firmes e fortes na defesa dos nossos territórios, dos nossos rios, das nossas florestas e da vida dos povos indígenas”, afirma Kleber Karipuna,coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A mobilização também deve marcar uma tentativa de reaproximação política com o presidente Lula. Em 2023, ao assumir o mandato, o presidente reafirmou compromissos com a pauta indígena ao subir a rampa do Planalto ao lado do cacique Raoni,principal liderança indígena do Brasil.
Apesar de medidas como a criação do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o fortalecimento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e das ações de controle ambiental, o governo também acumulou críticas por parte do movimento —incluindo o ritmo de demarcações de territórios, a forma como o governo tratou a questão do marco temporal e as disputas em pautas polêmicas, como o decreto de privatização dos rios da Amazônia — reflexo de divergências na base governista.“Estamos dialogando para que o presidente venha ao acampamento e possamos repactuar compromissos para a próxima gestão”, afirma o coordenador da Apib.
Alessandra Munduruku, liderança da região do Tapajós, no Pará, afirmou que o movimento espera mais escuta do governo aos povos indígenas. “Que o governo não decida sozinho com o agronegócio. Que antes de o agronegócio estar batendo na portadele, que ouça os povos indígenas, os quilombolas e ribeirinhos. Porque nós temos uma arma, que é a urna”, declarou à InfoAmazonia.
Em ano eleitoral, o movimento também aposta no fortalecimento de candidaturas indígenas como estratégia para ampliar sua presença nos espaços de decisão. Ao mesmo tempo, se prepara para enfrentar iniciativas que avançam no Congresso Nacional. Aprogramação inclui duas marchas: uma direcionada ao Legislativo, com críticas a projetos considerados anti-indígenas, e outra voltada a órgãos do Executivo, levando as principais reivindicações do movimento.
Mineração no centro do debate
Entre os temas que ganham força nesta edição está o avanço da mineração em terras indígenas, apontado pelas lideranças como uma das principais frentes de conflito. “A questão da mineração nos territórios indígenas está crescendo nasdiscussões, e vamos trazer pautas importantes sobre essa temática e sobre como enfrentar esse avanço”, diz Karipuna.
Em fevereiro deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o Congresso Nacional regulamente a mineração em Terras Indígenas no prazo de dois anos, além de autorizar imediatamente a mineração nos territórios ocupados pelos povos Cinta-Larga, de Rondônia.Enquanto isso, no Senado, um Grupo de Trabalho (GT) busca um texto para essa regulamentação. O GT foi criado por iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com o objetivo de elaborar um projeto de lei que regulamente a pesquisa e a lavra de recursos minerais em terras indígenas, proposta considerada pela Apib como de “enorme impacto sobre os direitos dos povos indígenas e a preservação dos biomas brasileiros”.
A programação do Acampamento Terra Livre 2026 reúne, ao longo da semana, atividades políticas, culturais e de mobilização na capital federal. O encontro inclui plenárias, escuta de demandas, atos e marchas, com foco na defesa dos territóriosindígenas. A mobilização encerra com a leitura do documento final do encontro.Imagem de abertura: Acampamento Terra Livre 2026 tem como tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”.
Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia
Via InfoAmazônia

