Oceano precisa entrar no centro do planejamento econômico do Brasil
Especialistas apontam que economia azul tem potencial para alavancar economia e mitigar emissões
Essenciais para a proteção de infraestruturas urbanas e economias locais, os ecossistemas costeiros ainda não ocupam lugar central na estratégia de investimento do país. Apesar de abrigar a segunda maior área contínua de manguezais do mundo — cerca de 990 mil hectares que funcionam como importantes estoques de carbono e barreiras naturais contra a elevação do nível do mar —, o Brasil ainda trata a conservação destes habitats de forma periférica. Esse diagnóstico consta em estudo do Instituto Clima e Sociedade (iCS), lançado durante o evento Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações, realizado nesta terça-feira (19), em São Paulo, no âmbito da Brazil Climate Investment Week 2026.
“O Brasil possui uma dependência enorme da zona costeira para atividades como turismo, pesca, transporte marítimo e energia. Só no Nordeste, os recifes de coral têm um potencial de mais de R$ 7 bilhões por ano em turismo e recreação. O objetivo do estudo é trazer o tema para a ‘economia real’, visto que o oceano é um motor econômico vital, e o litoral brasileiro reúne cerca de 18% da população nacional”, explica Maria Netto, diretora executiva do iCS.
Organizado pelo Instituto Clima e Sociedade, com apoio da Capital for Climate, da Converge Capital e do Nature Investment Lab (NIL), o encontro reuniu cientistas, formuladores de políticas públicas, representantes da sociedade civil e agentes dos setores público, privado e financeiro em torno de uma agenda comum: reposicionar o oceano no centro do planejamento econômico nacional.
Especialistas defenderam a superação do que classificam como um “isolamento científico” do tema, para que os oceanos passem a ser reconhecidos como reguladores climáticos com papel decisivo na descarbonização — potencialmente superior ao de outros biomas. A avaliação, no entanto, é de que a ausência de uma abordagem integrada ainda limita a capacidade do país de desenvolver sua chamada economia azul.
“Às vésperas de importantes conferências internacionais, o Brasil atravessa um momento decisivo para consolidar sua posição como referência global em sustentabilidade oceânica. A liderança brasileira se tornou uma agenda imediata, e nós trabalhamos para reforçar a compreensão de que o oceano é parte central do patrimônio nacional e um dos principais motores ambientais e econômicos do país”, afirma Sebastian Troeng, diretor executivo da Conservation International, destacando a realização da Conferência da Década do Oceano da ONU, prevista para 2027, no Rio de Janeiro.
O déficit de financiamento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), voltado à conservação e ao uso sustentável dos oceanos, foi apontado como um dos principais gargalos da agenda climática global ao longo do evento. Segundo relatório do World Economic Forum, de 2022, seriam necessários cerca de US$ 175 bilhões anuais para viabilizar o cumprimento da meta até 2030. Na prática, porém, o volume de recursos mobilizados segue muito abaixo desse patamar. Entre 2015 e 2019, apenas US$ 10 bilhões foram efetivamente destinados ao ODS 14. Para especialistas, a diferença não apenas evidencia a dimensão do desafio, como expõe um entrave estrutural: mais do que ampliar o fluxo de capital, é preciso estruturar e qualificar projetos para torná-los aptos a investimento e, assim, destravar o financiamento em escala.
“Aprendemos que o ODS 14 é o objetivo com menor financiamento, mas acho que é encorajador ver que tem havido muito interesse, embora nenhum desses mecanismos, por si só, seja suficiente. Há uma ampla gama de oportunidades, mas precisamos focar em como promover uma melhor governança, como fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências, como realmente avançar no aumento da resiliência, ampliar o acesso ao financiamento e, por último, mas não menos importante, como continuar os esforços em torno da cooperação global”, disse Piera Tortora, coordenadora do programa Oceanos Sustentáveis para Todos da OCDE. “Isso porque, como sabemos, os desafios dos oceanos são uma responsabilidade compartilhada, e há uma grande necessidade de garantir que o bom progresso que fizemos na governança internacional e nas agendas relacionadas aos oceanos continue”. completou.
Mudanças oceânicas associadas à crise climática afetam cadeias produtivas, turismo, estoques pesqueiros, infraestrutura, comunidades tradicionais e economias locais
Também participaram do evento as velejadoras e escritoras Tamara Klink e Heloísa Schurmann. “É difícil ter empatia pelo oceano quando a gente conhece tão pouco. Muita gente ainda vê o mar só como água, como paisagem. O que quase não aparece é que, em cada gota de água do mar, existem milhões de seres vivos — e sem eles a vida no planeta não existiria”, afirmou Tamara Klink.
Ao longo da programação, especialistas discutiram como as mudanças oceânicas associadas à crise climática já afetam cadeias produtivas, estoques pesqueiros, portos, infraestrutura, turismo, comunidades tradicionais e economias locais e como essa realidade pode se transformar em oportunidades em diversas frentes. Na visão geral, a preocupação com que todos os projetos pensados para aproveitar o potencial de negócios possíveis relacionados ao oceano sejam realizados de forma sustentável e justa com as populações.
No campo da resiliência costeira, os participantes discutiram os impactos do aumento do nível do mar, das tempestades, da erosão, da intrusão salina e de eventos extremos sobre moradias, estradas, portos, serviços públicos, turismo e atividades produtivas. A combinação entre restauração de ecossistemas, Soluções baseadas na Natureza (SbN), infraestrutura adaptada, mapeamento de riscos físicos, planejamento territorial e inovação em seguros foi apontada como caminho para reduzir perdas econômicas, proteger comunidades vulneráveis e orientar investimentos públicos e privados com maior eficiência.
Os sistemas alimentares costeiros e oceânicos também estiveram no centro dos debates. As mudanças climáticas foram apresentadas como fator de pressão sobre a pesca artesanal, a aquicultura, a distribuição de espécies, a produtividade dos ecossistemas marinhos e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, os painéis apontaram oportunidades para modelos de produção mais sustentáveis, manejo baseado em ciência, inovação em aquicultura de baixo impacto, fortalecimento de cadeias de valor e políticas capazes de gerar renda, conservar recursos naturais e apoiar comunidades tradicionais.
O encontro também abordou a necessidade de estruturar projetos com dados, métricas e monitoramento capazes de dar segurança aos investidores e apoiar políticas públicas mais consistentes. A produção e o uso de evidências científicas foram tratados como elementos transversais para todos os temas discutidos.
Mais informações – Avenida Comunicação
Marita Boos – marita.boos@avenidacom.com.br
Marina Brandão – marina@avenidacom.com.br

