Pesquisa investiga como pessoas e outros seres constroem as florestas amazônica
Mariana Franco Cassino, autora de uma das pesquisas reconhecidas no Prêmio CAPES de Tese 2026, mostra como relações entre povos amazônicos, plantas e animais ajudam a compreender a biodiversidade da região
Uma castanheira no meio da floresta pode contar uma história. A presença de determinadas plantas em uma área também. Na Amazônia, parte da vegetação que hoje cobre a paisagem guarda vestígios de escolhas, conhecimentos e práticas de povos que vivem na região há milhares de anos. Foi seguindo esses sinais que a bióloga Mariana Franco Cassino encontrou uma forma de compreender a floresta em toda a sua complexidade, não como um lugar separado das pessoas, mas como um lugar onde seres humanos, plantas e animais constroem relações que atravessam gerações.
Doutora pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mariana investigou paisagens com pelo menos três mil anos de história de ocupação humana na Amazônia Central. O trabalho teve como foco o sítio arqueológico Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé (AM), e reuniu botânica, arqueologia, ecologia, antropologia e epistemologias indígenas.
A pesquisa recebeu o Prêmio CAPES de Tese 2026 na área de Biodiversidade. Na semana subsequente ao Dia da Natureza, celebrado em 4 de outubro, o trabalho ajuda a compreender algo essencial sobre a maior floresta tropical do planeta. Conhecer a Amazônia exige ciência, pesquisa de campo, formação de pesquisadores e disposição para compreender também os conhecimentos produzidos por quem construiu sua história e vive nela.
Uma floresta marcada pelo tempo
Mariana estuda as chamadas florestas culturais. O nome pode parecer complexo, mas a ideia é simples. São florestas cuja estrutura e composição de espécies também resultam do manejo realizado por pessoas ao longo do tempo. A pesquisa mostrou que povos amazônicos do passado e do presente contribuíram para a formação de paisagens diversas, moldadas por diferentes escolhas e práticas.
Essas escolhas ainda podem ser percebidas.
O estudo indica que populações amazônicas favorecem uma grande diversidade de plantas alimentícias desde períodos iniciais da ocupação humana. A presença e a abundância de determinadas espécies ajudam, portanto, a contar uma história que nem sempre está escrita em documentos. Ela permanece na própria floresta.
O que a pesquisa permite compreender é mais preciso. Durante milhares de anos, sociedades amazônicas também influenciaram a composição de partes dessas paisagens.
A floresta encontrada hoje não é resultado de uma única ação nem permaneceu imóvel no tempo. Mariana identificou mosaicos florestais com grande riqueza e abundância de alimentos e diferentes comunidades de plantas e animais, formados por trajetórias locais e dinâmicas.
A participação humana é apenas uma parte dessa história.
Cutias, castanheiras, samaúmas e pessoas
Foi durante sua trajetória acadêmica que Mariana começou a perceber que separar seres humanos e natureza não seria suficiente para explicar aquilo que encontrava.
Bióloga trabalhando com arqueologia amazônica, ela estava inserida em um ambiente interdisciplinar e mantinha diálogo com antropólogos indígenas e não indígenas. Ao observar como populações locais compreendiam o manejo da floresta, percebeu que as práticas humanas apareciam ligadas às ações de outros seres. Entre eles estavam cutias, castanheiras, samaúmas, antas e tantos outros, inclusive seres que permeiam as cosmologias indígenas, como os donos e as mães das matas, dos rios, entre outros.
A pergunta da pesquisadora cresceu a partir daí. Como todas essas relações, acumuladas no tempo e distribuídas pelo território, participam da construção e da manutenção das florestas amazônicas?
Buscar uma resposta exigiu atravessar as fronteiras tradicionais entre áreas do conhecimento. Botânica, ecologia e arqueologia passaram a conversar com a antropologia e com formas indígenas de compreender a floresta.
“Pessoas, plantas, animais e outros seres constituem, transformam e mantêm as florestas por meio de redes de relações, agindo e transformando uns aos outros de diferentes maneiras”, explica Mariana.
A frase ajuda a traduzir uma das ideias centrais de anos de investigação. A floresta não é apenas o lugar onde essas relações acontecem. Ela também é resultado delas.
Quando uma planta vira documento
Entre as proposições da tese está uma mudança que parece pequena nas palavras, mas altera a maneira de investigar o passado. Mariana propõe que plantas na Amazônia também possam ser tratadas como artefatos culturais.
Um objeto encontrado em um sítio arqueológico pode fornecer pistas sobre quem esteve ali, como vivia e o que fazia. A pesquisa de Mariana mostra que a vegetação também pode carregar informações sobre as histórias humanas de um território.
Uma comunidade de plantas passa, assim, a fazer parte das evidências que ajudam a compreender o passado.
A tese questiona a ideia de uma natureza dissociada das histórias das pessoas. Também propõe que plantas, animais e outros seres não sejam vistos apenas como elementos passivos de um ambiente transformado exclusivamente pela ação humana. Todos participam, de maneiras diferentes, das redes que constituem, mantêm e modificam as florestas.
É nesse ponto que a pesquisa científica também se aproxima dos conhecimentos indígenas. Em vez de considerar que apenas uma forma de conhecimento pode explicar a Amazônia, o trabalho estabelece diálogo entre o pensamento científico e maneiras indígenas de compreender o mundo.
Para Mariana, essa aproximação pode ampliar a capacidade de compreender as relações responsáveis pela transformação da biodiversidade amazônica.
Conhecer a Amazônia também é protegê-la
O que aconteceu há milhares de anos ajuda a responder perguntas do presente.
Se a biodiversidade de parte das florestas amazônicas também carrega a história das populações que vivem e viveram nesses territórios, conservar a região exige compreender essas relações. Para Mariana, estratégias de conservação podem considerar as práticas, as histórias e os sistemas de conhecimento das populações que há gerações vivem e transformam as florestas.
É também aí que a produção científica brasileira ultrapassa os limites de uma tese.
Produzir conhecimento sobre a Amazônia significa conhecer a biodiversidade, a história e as populações de uma região fundamental para o Brasil e para o equilíbrio ambiental do planeta. Significa formar pesquisadores capazes de estudá-la a partir do país e ampliar a capacidade brasileira de compreender o próprio território.
Ciência e soberania caminham juntas quando o conhecimento produzido no Brasil oferece ao país instrumentos para conhecer, conservar e tomar decisões sobre seu patrimônio natural. Na Amazônia, uma região que desperta interesse científico, ambiental e econômico em todo o mundo, produzir conhecimento próprio também fortalece a capacidade brasileira de definir caminhos para seu território e sua biodiversidade.
No trabalho de Mariana, isso começa pelo reconhecimento de uma Amazônia cuja história não pode ser contada sem seus povos. A biodiversidade encontrada hoje também guarda conhecimentos e práticas desenvolvidas durante gerações. Preservá-la envolve compreender essa memória.
Anos de pesquisa reconhecidos
Uma tese de doutorado não nasce no momento em que é defendida. Antes da versão final, existem anos de estudo, perguntas refeitas, trabalho de campo, leitura, análise, diálogo com outros pesquisadores e resultados que precisam ser testados e compreendidos.
O Prêmio CAPES de Tese reconhece trabalhos de destaque concluídos nos programas de pós-graduação brasileiros. Ao premiar a pesquisa de Mariana na área de Biodiversidade, a edição de 2026 dá visibilidade a uma produção científica que aproxima diferentes disciplinas e conhecimentos para investigar a Amazônia.
Para Mariana, o significado desse reconhecimento está ligado justamente ao caminho escolhido durante a pesquisa.
“Este prêmio representa o reconhecimento da importância de integrar diferentes perspectivas e saberes para ampliar nossas formas de compreender e viver a Amazônia e de pensar caminhos diante das crises socioambientais que enfrentamos”, afirma.
A pesquisadora também vê na premiação um incentivo ao desenvolvimento de uma ciência intercultural, em que disciplinas acadêmicas possam dialogar de maneira justa e simétrica com as ciências indígenas.
“Para mim, é um sinal de que esse é um caminho importante para a ciência que queremos construir”, afirma Mariana.
A pesquisa começou com uma pergunta sobre as florestas culturais amazônicas e revelou quantas histórias podem existir onde alguém vê apenas árvores. Histórias preservadas em castanheiras, alimentos, animais, vestígios arqueológicos e conhecimentos transmitidos por gerações.
Conhecê-las exige ciência. Produzir esse conhecimento no Brasil permite que o país compre

