As duas montanhas

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Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Certa vez, existia um homem de coração simples. Vivia, porém, atormentado por uma angústia: na frente da sua casa e do seu campo havia duas montanhas altíssimas.

– Se elas não estivessem ali – ele pensava – nós poderíamos levar as nossas vaquinhas direto para beberem a água do rio que está do outro lado. Pensou muito e, quando chegou à idade de noventa anos, convocou toda a família. Olhou bem nos olhos de todos e depois falou:

– Vamos reunir todas as nossas forças e vamos rebaixar as montanhas que nos impedem o acesso ao rio. É verdade que são gigantescas, mas, graças a Deus, nós todos temos boa saúde, braços fortes e grande vontade.

A mulher reclamou:

– Como vais conseguir isso? Tu não consegues mais levantar nem um balde de água. E depois, onde vamos colocar tanta terra e tantas pedras?

– As levaremos do outro lado da nossa casa – foi a resposta do velho. E começaram a trabalhar. Quebraram muitas pedras e recolheram muitos cestos de terra. A eles se juntou uma vizinha, viúva, com o seu filho ainda criança. Quando chegaram as chuvas do inverno, eles pararam. Ali por perto, morava um sábio que tentava convencer o velho a desistir daquela insana empreitada.

– Tu ficaste louco – disse um dia ao velho – tens pouquíssimas forças, como poderás tirar uma montanha das suas raízes?

O idoso respondeu:

– O teu coração está duro e insensível. Não viste que uma viúva já veio nos ajudar? Escuta o que vou te dizer: se eu morrer, meu filho sobreviverá. Ele também tem filhos e assim gerações de filhos e netos irão se suceder. Onde estás vendo tanta dificuldade para tirar as montanhas que, por parte delas, não podem mais crescer?

O sábio ficou calado. O vento das alturas levou a notícia ao bom Deus. Este ficou tão admirado com a atitude do velho homem simples que, numa noite, mudou o lugar das montanhas. A partir daquele dia, o caminho para o rio ficou livre para sempre.

No segundo domingo de Páscoa, sempre encontramos a página do evangelho de João que nos apresenta a incredulidade do apóstolo Tomé. Mas não tem somente isso. Jesus entrega aos seus discípulos o dom do Espírito Santo e os envia em missão. São enviados para comunicar ao mundo a boa notícia da ressurreição de Jesus, da vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte. Missão impossível sem a força do Espírito Santo e sem a fé generosa de quem se dispõe a cumpri-la. Tudo é dom do Senhor, no entanto Ele pede a nossa resposta livre e a nossa participação no projeto do seu Reino. Fácil entender que essa árdua missão começa dentro de nós. Quando experimentamos as nossas fraquezas e limitações, somos tentados de pensar que não vale a pena. Melhor desistir logo. Pior, ainda, quando percebemos o tamanho das questões do mundo e da sociedade. Os passos dados pela humanidade nos parecem tão insignificantes que só confirmam a temeridade do esforço.

O resultado dessa descrença todos nós o conhecemos: cristãos fracos, medrosos e tristes, porque se consideram incapazes, nunca à altura de tão grande missão. Se depois juntamos as tentações do comodismo e as críticas, que acompanham sempre quem busca ser e fazer algo de diferente, chegamos à conclusão que nunca mudará nada. Na realidade o Senhor não nos pede coisas extraordinárias ou espantosas. Pede-nos a paciência, a perseverança e, afinal, a confiança nele. Repete-nos o que disse a Tomé: “Não sejas incrédulo, mas fiel” (Jo 20, 27). Como sempre, nós queremos ver logo os frutos da missão, queremos colher glórias que não são nossas, temos medo do insucesso. Queremos ser grandes em lugar de sermos humildes e pequenos. Queremos fugir do caminho do sofrimento e da cruz para mudar as injustiças, para que sobressaia a verdade e derrote as mentiras. A fadiga do bem não vai acabar tão cedo. Mas se tivermos fé, quando menos pensamos, numa noite, as montanhas do mal vão desaparecer. Se não todas, ainda, ao menos aquelas do nosso desinteresse e do nosso pessimismo. Já é alguma coisa. Outros farão o resto, até quando Deus quiser.

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