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O menino e o maestro

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Uma mãe desejava estimular seu filhinho para que progredisse no estúdio do piano. Por isso, levou a criança ao concerto do grande pianista Paderewski. Chegaram à sala e se acomodaram nas poltronas. A mãe viu uma amiga, pouco atrás, e resolveu ir cumprimentá-la não sem antes ter dito ao menino: “Não saia daí”. Mas, o concerto demorava e a mãe também não voltava. Assim a criança não aguentou ficar sentada e começou a vagar pelo teatro até que chegou a uma porta onde estava escrito: Entrada Proibida.

Quando baixaram as luzes da sala, porque o concerto estava iniciando, a mãe voltou para o seu lugar e viu que a criança não estava mais lá. Indagou com o olhar para ver onde se tinha enfiado, mas não a viu. A sala ficou no escuro e as cortinas do palco se abriram. A mãe tomou um susto: o menino estava lá, sentado na frente do piano, tocando devagar as notas do Hino Nacional.

Naquele exato momento, chegou o pianista que sussurrou ao ouvido da criança: “Continue, não pare! ”. O grande Paderewski sentou-se ao lado dela, contornou-a com seu braço direito e começou a tocar o piano criando arranjos junto com a música que o menino tocava. Assim, o velho maestro e o jovem aluno transformaram uma situação constrangedora numa exibição maravilhosamente criativa.

Mais um caso curioso da vida. No entanto, nem todo adulto sabe aproveitar das situações inesperadas que as crianças criam; sobretudo quando não consegue brincar nem um pouco e toma tudo muito a sério. As crianças, com suas palavras e gestos espontâneos, nos ajudam a enxergar a vida com um olhar mais simples e inovador. Ser amigos – e educadores – das crianças não significa ensiná-las para que repitam sempre e somente aquilo que nós adultos consideramos absolutamente fundamental e necessário. Amigo é aquele que acolhe também o novo, o valoriza e, com isso, permite ao outro de manifestar as suas capacidades e potencialidades. De outra forma, cada geração deixaria uma cópia de si mesma e nunca algo de novo e, espera-se, também de melhor.

Acredito que seja neste sentido que Jesus, no evangelho deste domingo, chama os seus discípulos de “amigos”. Se eles fossem servos e ele o patrão, seria suficiente obedecer cegamente, sem precisar entender – e, às vezes, sem querer mesmo conhecer – a vontade do senhor. Entre amigos o relacionamento é diferente. Deve existir confiança recíproca. Os amigos compreendem bem a vontade do outro e a cumprem alegremente porque abraçam a mesma causa e assumem o mesmo compromisso. Sentem-se unidos, afinal, numa só vontade. No dizer de Jesus, ele revelou aos seus amigos tudo o que ouviu do Pai, portanto, eles, agora, estão envolvidos no mesmo projeto de amor. Para isso, foram escolhidos e enviados. Jesus os colocou num novo relacionamento com o Pai, são filhos amados, colaboradores, amigos ao ponto de estar em comunhão com Ele. Permanecer no amor do Pai significa desfrutar da intimidade com Ele e, ao mesmo tempo, experimentar a alegre responsabilidade de ajudar outros a encontrá-lo, conhecê-lo e amá-lo.

Essas palavras de Jesus nos fazem ver como estamos distantes de uma visão da fé cristã e da pertença à Igreja e à nossa Comunidade, que nos faça sentir mais envolvidos profunda e solidamente. Por exemplo, quando nos consideramos meros “clientes”, interessados somente em algum “serviço” que pedimos à comunidade, como missas, batizados, casamentos, bênçãos e orações, e não buscamos ser “amigos” dos irmãos e irmãs da comunidade. Ela não é “nossa”. Às vezes somos cumpridores também de algum “serviço” contribuindo com a sustentação das atividades, mas pouco ou nada envolvidos com o coração. Estamos mais prontos para criticar os outros do que para assumir a responsabilidade de acertos e desacertos. Jesus quer “tocar” a nossa vida junto conosco, como amigo verdadeiro, para fazer algo de novo e maravilhoso. Precisamos confiar e obedecer, como o menino com o grande maestro.

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