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A parábola do pai e dos dois filhos

Dom Pedro José Conti
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Desta vez, não tenho coragem de contar um fato ou uma história. Seria imperdoável se a minha introdução ao assunto, um mero expediente literário, tirasse a atenção e diminuísse a compreensão do próprio evangelho.  A parábola do pai e dos dois filhos, que proclamamos neste Quarto Domingo de Quaresma, não só é bonita demais, mas também é decisiva para entender a grandeza da misericórdia daquele Deus Pai do qual Jesus, o Filho, quis mostrar o rosto.

Além disso, a pedido do papa Francisco, estamos celebrando o Ano Santo da Misericórdia. Talvez, apesar de termos ouvido essa parábola inúmeras vezes, ainda não entendemos bem o quanto estamos longe de aprender a acolher, a perdoar e a fazer festa como aquele pai que, de fato, não somente perdoa o filho “pródigo&r dquo;, mas também quer convencer o filho mais velho a participar da alegria da reconciliação. O evangelista Lucas coloca esta parábola junto com outras duas: aquela da ovelha e a da moeda perdidas ou, seria melhor dizer, do pastor zeloso e da mulher cuidadosa.

Essas parábolas são a resposta de Jesus às críticas sobre o fato que se sentava à mesa com os pecadores, ou seja, manifestava atenção e acolhida para com eles.

Vou dizer logo que, também, se de maneiras diferentes e opostas, nenhum dos dois filhos ama o pai. Ambos desejam mais os bens dele que ele mesmo. Para o filho menor a casa paterna é uma prisão. Sonha com a liberdade, em poder decidir por sua conta o que mais lhe agrada e lhe dá prazer. Nada de obrigações. Para uma “liberdade” assim entendida é preciso ter dinheiro. Basta cobrar do pai a parte da herança. Surpreendentemente o pai divide as riquezas. Não adianta prender um filho cujo coração já está muito longe. Ele vai embora; talvez feliz, mas os amores comprados duram tanto quanto o dinheiro. Assim acaba a farra e as amizades interesseiras desaparecem. Fica a necessidade da comida, nem que sejam as sobras dos porcos. No entanto, seja como for, no coração daquele filho tão irresponsável ficou a lembran&ccedil ;a da casa paterna. Lá nem os empregados passam fome. Envergonhado, de cabeça baixa, consciente dos erros cometidos, decide voltar para casa. Pelo jeito, o pai também não tinha perdido a esperança de ter seu filho de volta. Assim, de longe o reconhece e corre ao seu encontro. Nem o deixa falar: filho é sempre filho – esta é a maravilha da misericórdia do Pai – nada de ser tratado como servo. Veste, anel, sandálias, música: é a festa do reencontro!

O outro filho, o mais velho, é o filho obediente, fiel, mas não por amor. Talvez por medo, por interesse ou simplesmente para ter a satisfação de sentir-se melhor do que o outro irmão desviado – que ele despreza – e poder jogar isso na cara do pai. No fundo, para ele, o pai é um patrão exigente, que controla tudo, nunca solta um cabrito para festejar com os amigos. É fácil entender que o filho menor representa os pecadores, errados sim, mas que não esqueceram a casa do pai e a ela voltam arrependidos. Ao contrário, o filho mais velho representa os fariseus e os doutores da Lei, daquele tempo e de sempre, prontos a julgar e a condenar os que saem da linha. Fixados nos pecados dos outros, estão totalmente incapazes de perceber as suas próprias faltas. Orgulhosos, autossuficientes, hipócritas, que se escondem atrás de uma perfeiç& atilde;o inexistente.

Novamente o pai sai. Desta vez, para convidar o filho “obediente” a participar da alegria da volta do irmão e, assim, a perdoá-lo também. A parábola termina com esta dúvida: haverá reconciliação entre os dois? A felicidade do pai poderá ser plena somente se isso acontecer. Até que os filhos estejam divididos, uns julgando e condenando os outros, o pai continuará a suplicar pelo perdão. Muito ou pouco, somos todos pecadores, mas não queremos reconhece-lo. Preferimos jogar a culpa das coisas erradas sempre nos outros, pensando, assim, sermos melhores. A conversão do outro começa com a nossa própria conversão, com a nossa humildade, com o nosso abraço. Todos temos culpas suficientes para pedir perdão. Nem que seja o nosso coração fechado. O Pai nunca desiste de ninguém e sempre nos convida para a festa do perdão. Vamos mudar e entrar?

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