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A humanidade de Deus

Um homem disse: Deus fala comigo!

Um bem-te-vi cantou, mas o homem não o escutou.

Então o homem repetiu: Deus fala comigo!

E se ouviu um trovão, mas o homem não soube ouvir.

O homem olhou ao seu redor e disse: Deus faz que eu te veja!

E uma estrela brilhou no céu, mas o homem não a viu.

O homem começou a gritar: Deus faça um milagre para mim!

E nasceu uma criança, mas o homem não percebeu o palpitar da vida.

Então o homem começou a chorar e desesperar-se: Deus toca-me e faz que eu saiba que estás aqui comigo!

E uma borboleta posou delicadamente em seu ombro. O homem a espantou com a mão e, desiludido, continuou o seu caminho triste, sozinho e com o coração cheio de medo.

É Natal! Para os cristãos, o menino Jesus que nasceu em Belém da Judeia é nada menos que o Filho de Deus Pai feito ser humano como qualquer um de nós. Mais do que isso Deus não podia fazer para vir ao nosso encontro. Essa devia ser a melhor notícia, algo nunca imaginado, o maior evento da história. No entanto, ainda hoje, muitas pessoas afirmam estar em busca de Deus, mas parece que não conseguem encontrá-lo. O que está impedindo esse encontro? É culpa de Deus, que não se explicou bem e veio de maneira errada, ou é culpa nossa que sempre queremos encaixá-lo nos nossos esquemas?

Pelo jeito, ainda não somos suficientemente humildes para admitir que Deus possa nos surpreender e agir de forma diferente, nova, divina. Porque, sim, Deus se tornou um de nós, mas não deixou de ser e amar como Ele é, porque Deus é amor. Essa é a grande, insuperável revelação que os cristãos são enviados a anunciar ao mundo com as suas vidas. É preciso prestar atenção ao jeito de Deus se manifestar, saber ouvir e ver. No Natal, foram pastores e magos a experimentar a alegria de reconhecer o Salvador. E depois? Quantos ficaram decepcionados com Jesus! Muitos esperavam um Messias grande e poderoso. Jesus veio criança, pequeno e pobre. N&atild e;o nasceu nos palácios, mas numa estrebaria. Quem aguardava um Messias triunfador capaz de esmagar os inimigos, viu Jesus ser preso e condenado, sem armas, sem legiões, sem tramas políticas. Aos que gritavam: “Se és o filho de Deus, desce da cruz, salva a ti mesmo e a nós” Jesus respondeu entregando a sua vida nas mãos do Pai, que é bondade, misericórdia, perdão e não violência, humilhação, vingança. Outros esperavam uma revelação de Deus definitiva, indiscutível, autoritária. Jesus falou com a linguagem humana daquele tempo, daquela cultura. Quis ser escutado e compreendido por pessoas concretas: pais, mães, filhos, agricultores, pescadores, sofredores, homens e mulheres certos e errados, mas todos reais, com as suas penas, angústias, mas também suas alegrias e esperanças. Jesus não falou a linguagem dos anjos, porque não veio para salvar os anjos, mas a nós, mergulhados no cotidiano com as nossas preocupações diárias. Elas têm gosto de fome, de desemprego, de intrigas. Jesus não teve vergonha de pedir água à samaritana e na cruz; nem de sentar-se à mesa com pecadores e prostitutas falando-lhes de dívidas impagáveis, mas que o seu Pai queria perdoar. Tocou em leprosos e cadáveres; deixou que o perfume da Madalena enchesse a casa de aroma. Foi humano, fraterno, solidário, teve compaixão, chorou, exultou pela amizade dos simples e pequenos. Esse é o nosso Deus, não um imaginário poderoso, um milagreiro resolve tudo, um celestial alienante.

No Natal, o Deus feito criança, o nosso Deus Amor, foi deitado numa manjedoura, perseguido e adorado. O seu nascimento foi boa notícia para alguns e apavorou Herodes, o rei tirano. Jesus foi acolhido ou decepcionou. Acontece a cada Natal.

Cristãos, peçamos a Jesus, nosso irmão universal, para aprendermos a escutar a sua Palavra feita linguagem humana, familiar, para saber reconhecê-lo nos pequenos e sofredores, saber amá-lo e segui-lo como ele quis ser e sempre é, o Deus conosco, divino e humano. Tão divino que, por amor, fez-se humano. Fez-se o nosso “nada” (Fil 2,7) para que pudéssemos participar das suas divinas maravilhas! Feliz Natal para todos!

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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