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Documentário sobre identidade de quilombolas do Baixo Amazonas mostra herança cultural africana no Pará

Projeto contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural,

‘”Marambiré”, do diretor André dos Santos, mostra a dinâmica de manifestação

cultural, passada de geração em geração, da comunidade do Pacoval, localizada

no município de Alenquer, no Pará, envolvendo brincantes e espectadores

com dança, percussão, música, canto e teatro



Integrantes do Marambiré apresentam-se em Alenquer. A foto é um frame do documentário de André dos Santos.

 

O Marambiré, manifestação cultural que envolve dança, música e cantos marcados fortemente pelo som da caixa e dos pandeiros, fazendo referência aos antigos reinados da África Central, é tema do documentário Marambiré, do diretor André dos Santos. Realizado dentro do projeto Marambiré – Corporalidade, música e fé, contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2015-2016, um dos principais programas de fomento à cultura e às artes brasileiras, o filme será exibido na próxima sexta-feira (10), na própria comunidade onde foi gravado, a localidade do Pacoval, no município de Alenquer, no Pará.

Por meio de depoimentos dos mestres populares e da comunidade, o documentário traz à tona esse ritual que resiste há mais de um século como instrumento de preservação da cultura, das raízes africanas, das memórias dos escravos e de seus descendentes na região amazônica, reunindo corporalidade e oralidade. Passada de geração em geração, a dança re­cria um universo teatral-ritual com rei, rainhas, “valsares”, tocadores e contramestres. Atualmente, se apresenta na forma de um festejo sincrético que inclui elementos de cultos africanos e religião cristã, assim como culturas portuguesa e africana.

O filme, feito sob os preceitos do cinema etnográfico, ou cinéma-vérité, criado pelo francês Jean Rouch e que pretende interferir o mínimo possível no que está sendo documentado, também aborda as esmolações de Santa Luzia, a luta pela terra e a conquista da demarcação como área quilombola, e o preparo de uma espécie de soro antiofídico própria da comunidade. O enredo tem início com depoimentos dos mestres populares do Marambiré, que perpetua as memórias africanas na região amazônica e enfatiza como essa dança se tornou símbolo da identidade da população quilombola do Baixo Amazonas.

“Essa referência do cinema verdade é fundamental. É lógico que sempre que ligamos a câmera na frente do depoente não é a mesma coisa. Então, buscamos captar imagens e deixando eles o mais a vontade possível. Conheci a comunidade há muito tempo e quando escrevi o projeto, comuniquei e mantive diálogo com a associação, fomos nos afinando. Isso foi fundamental para realizar o documentário. Considero importante fazer esses registros, por questões de salvaguarda e memória”, explica o diretor.

André dos Santos é ele próprio remanescente de quilombo, nascido na comunidade Boa Vista – a primeira comunidade de descendentes de escravos a receber o título coletivo e definitivo de suas terras em 1995. Por isso também seu interesse em ir até o outro lado do estado para filmar o Marambiré, na qual se representa uma corte real, com rei de congo, rainha de congo, rainhas auxiliares, duas filas com valsares e um contramestre; tudo em louvor a São Benedito. As letras dos cantares misturam português com palavras africanas, das quais muitas vezes os brincantes desconhecem o significado.

“Conheci essa manifestação na infância, em um encontro do Raízes Negras em que um cordão se apresentou. Desde então, essa imagem ficou na minha cabeça e quando vi o edital do Rumos, surgiu a ideia de inscrever um projeto sobre essa cultura, pouco conhecida até mesmo no Pará. Como são vários assuntos, em um primeiro momento nos preocupamos em sermos didáticos, apresentar o que é o Marambiré, para situar o espectador no ritual. Fizemos um primeiro corte e ainda está sem cor e sem desenho de som. Agora é fazer isso e finalizar”, diz.

História

O Marambiré ocorre principalmente em homenagem a São Benedito, um santo católico venerado em Portugal desde o sé­culo 16 e que, ao ser trazido ao Brasil pelos padres portugueses, por ser ex-escravo, foi prontamente adotado pelos escravos, tornando-se um santo negro de grande devoção. A festa maior inicia em 14 de dezembro, dia de Santa Luzia, e termina em 20 de janeiro, dia de São Sebastião. O ponto alto dos festejos ocorre no dia 6 de janeiro, dia de São Benedito.

Além do forte aspecto religioso, o Marambiré tornou-se um símbolo da resistência étnica, não somente da comunidade do Pacoval, mas de diversas outras localizadas no baixo Amazonas. Nas letras das músicas, as referências à África, ao sofrimento e ao passado escravista são fortes, marcando o pertencimento étnico e a identidade afrodescendente.

Ele se desenvolve de maneira ritualística e teatral, seguindo passos que determinam diferentes formações – como fileiras ou rodas –, músicas e cantos e atuações dos personagens envolvidos. Um dos ritmos que embala o momento é o Lundum, muito parecido com o Carimbó e o Marabaixo. Os personagens são o Rei do Congo, a Rainha do Congo, as rainhas auxiliares, os cabeçários, o caixeiro, o contra-mestre e os valsares. A presença de uma “corte” é muito comum em diversas manifestações culturais de origem africana.

Os dançarinos vestem trajes brancos e coloridos, coroas e capacetes feitos de fitas e papéis de seda e crepom coloridos, que substituem as pe­nas de pássaros usadas no passado. O ritmo da dança é dado pela caixa e pelos pandeiros. Como retrata o documentário, as letras das músicas são bastante antigas e, segundo a comunidade, não são mudadas desde que foram criadas. Cada parte do ritual tem seus cantos específicos. Ao mesmo tempo em que as músicas evocam São Benedito, rendem tributo à nobreza – ao Rei e à Rainha do Congo – e seus vassalos, atualmente chamados de valsares.

André dos Santos
O diretor do documentário é quilombo­la, nascido na comunidade Boa Vista, no alto rio Trombetas, no Pará, a primeira comunidade de rema­nescentes de quilombos a receber o título coletivo e definitivo de suas terras, em 1995. Há cinco anos, vem se dedicando a produzir documentários sobre a vida e a cultura de comunidades afrodescendentes na Amazônia, como forma de divulgar e preservar esses saberes, sabendo da importância que o audiovisual tem para esse feito.

 

Sobre o Rumos Itaú Cultural

O Itaú Cultural mantém o programa Rumos desde 1997. Este que é um dos primeiros editais públicos do Brasil para a produção e a difusão de trabalhos de artistas, produtores e pesquisadores brasileiros, já ultrapassou os 52 mil projetos inscritos vindos de todos os estados do país e do exterior. Destes, foram contempladas mais de 1,3 mil propostas nas cinco regiões brasileiras, que receberam o apoio do instituto para o desenvolvimento dos projetos selecionados nas mais diversas áreas de expressão ou de pesquisa.

 

Os trabalhos resultantes da seleção de todas as edições foram vistos por mais de 6 milhões de pessoas em todo o país. Além disso, mais de mil emissoras de rádio e televisão parceiras divulgaram os trabalhos selecionados. Nesta edição de 2017-2018, os projetos inscritos serão examinados, em uma primeira fase seletiva, por uma comissão composta por 40 avaliadores contratados pelo instituto entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país.

 

Em seguida, passarão por um profundo processo de avaliação e análise por uma Comissão de Seleção multidisciplinar, formada por 22 profissionais que se inter-relacionam com a cultura brasileira, incluindo gestores da própria instituição.

 

SERVIÇO

Rumos Itaú Cultural 2015-2016

 

Marambiré

De André dos Santos

Dia 10 de novembro de 2017

Na Comunidade do Pacoval, em Alenquer (Pará)

Duração: 80 minutos

Classificação indicativa: livre

 

Texto: Itaú Cultural e Dominik Giusti

Assessoria de imprensa – Belém: Sorella Conteúdo

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