Dom Pedro Conti: O mendigo da estrada

Um rei não tinha filhos. Mandou mensageiros para espalhar avisos. Os jovens aspirantes ao trono deviam ter duas condições: amar a Deus e aos seres humanos de todas as classes e raças. Aqueles que se achassem qualificados deviam apresentar-se para uma entrevista com o rei. Um jovem leu o aviso e pensou que podia participar. Amava a Deus, sempre ajudava em casa e os vizinhos quando precisavam. Logo, porém, desanimou: era muito pobre, não tinha nem roupa p ara apresentar-se ao palácio. Contudo tomou coragem, implorou ajuda, emprestou a roupa e conseguiu o necessário para a viagem. Todos gostavam dele. Estava quase para chegar quando, no caminho, encontrou um mendigo pedindo socorro.

 –  Tenho fome e frio. Por favor, ajude-me! – chorava o pobre.

O jovem ficou indeciso sobre o que devia fazer, mas a sua bondade falou mais alto. Deu ao mendigo o pouco que tinha. Quando chegou ao palácio, um criado foi ao encontro dele, o convidou a entrar e o conduziu direto à sala do trono. Quando levantou os olhos e viu o rosto do rei, mal conseguiu falar:

 – O senhor é o rei? Mas…o senhor era o mendigo da estrada!

 – Era mesmo – respondeu o rei – Se eu tivesse me apresentado com a coroa e as roupas reais, você teria feito qualquer coisa por causa do meu poder. Por isso, me disfarcei de pobre, para saber se você amava mesmo a Deus e aos seus semelhantes! Meu jovem, você passou no teste. Será o herdeiro do trono!

O evangelho de Marcos, deste domingo, continua com a cura de um leproso. Sozinho. Por que tanto privilégio? Porque não se juntou aos demais que Jesus curava andando pelos povoados da Galileia? Por medo do contágio, os leprosos não podiam entrar nas cidades, deviam ficar longe, afastados de tudo e de todos. Ainda eram vivos, mas eram considerados mortos. Esse leproso talvez tivesse ouvido falar de Jesus. Tomou coragem, foi ajoelhar-se aos seus pés e pediu a cur a. Mais coragem ainda teve Jesus em estender a mão, tocá-lo e, assim, purificá-lo da lepra. O gesto lhe custou caro, porque a notícia se espalhou e, por enquanto, sempre com a desculpa da terrível doença, Jesus teve que ficar fora das aldeias. Não podia mais entrar “publicamente”, diz o evangelho.

Como sempre, Marcos quer nos dizer algo mais. As doenças apresentadas parecem ser cada vez mais graves. Começou com o espírito mau, depois a febre da sogra de Pedro, diversas doenças e, enfim, a lepra. A próxima cura será de um paralítico, antes, porém, Jesus lhe disse que perdoava os seus pecados. Foi um escândalo, mas este é o ponto onde o evangelista quer nos conduzir. A pior doença é o mal instalado no cora&c cedil;ão humano, quando o orgulho e a disputa com Deus tomam conta de tudo. Junto, desaparece também a compaixão pelo próximo. Para Jesus, pecado é morte, um viver sem vida. Ele quer doar vida nova aos enfermos e aos pecadores. Ainda, porém, não é o tempo do entusiasmo e da divulgação. Falta a cruz. De novo, no Calvário, Jesus ficará fora da cidade.

O Deus Pai, que Jesus veio revelar, não quer ninguém fora, afastado, excluído do seu amor. As curas das doenças, a expulsão dos demônios e o perdão dos pecados, manifestam este projeto de vida nova. Para isso, Jesus está disposto a ficar, ele mesmo, “fora” da cidade. Nesta página do evangelho, é visível a troca de lugar entre ele e o leproso.  Jesus, agora, é o excluído, solidário c om todos os excluídos, com as “massas sobrantes” do cinismo e da ganância humana. Um Jesus qualquer, pequeno, pobre, com fome e com frio. Um Jesus malfeitor, pregado na cruz, sem beleza e aparência de homem. Desfigurado, desumanizado. Precisa ter olhos limpos e coração misericordioso para reconhecê-lo. Não tem roupa de rei. Não tem poder algum. Não promete vantagens. Não manda, pede, como o leproso: “Se queres…”. O amor verdadeiro não é imposto ou negociado. Vale se for puro dom.  A Quaresma que se aproxima pode ser um tempo bom para testar a nossa solidariedade ou o nosso egoísmo. Tomara que vença a fraternidade.

Dom Pedro é Bispo de Macapá

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