Nenhum município brasileiro oferece hoje condições de vida adequadas para as mulheres, aponta Índice Municipal de Gênero
Instrumento desenvolvido pela Tewá 225 reúne dados públicos de 5.570 municípios brasileiros e aponta participação política, saúde e trabalho e renda entre os principais gargalos para as mulheres
Principais achados do Índice Municipal Gênero:
- Participação política é a dimensão com pior desempenho, com média nacional de 29,59 pontos; 68,70% dos municípios não têm Conselho Municipal dos Direitos da Mulher;
- Saúde aparece como um dos principais gargalos, com média nacional de 30,42 pontos; apenas 24,74% das gestantes realizaram seis ou mais consultas de pré-natal; somente 36,14% das mulheres possuem acesso a exames preventivos como Papanicolau;
- Mulheres negras e indígenas são mais impactadas nas localidades com piores resultados e 64,15% estão na região Norte;
- As capitais não são, necessariamente, referência para condições de a vida adequadas das mulheres: em apenas 5 dos 27 estados, a capital é bem pontuada;
- A média nacional do IMG é de 50,60 pontos, com mais de nove em cada dez municípios concentrados entre 40 e 60 pontos;
São Paulo, 05 de outubro de 2026 — Instrumento inédito produzido pela Tewá 225 — consultoria que realiza estudos e projetos para enfrentar problemas socioambientais das empresas, organizações e governos — revela um cenário alarmante no Brasil: nenhum município brasileiro oferece hoje condições consideradas adequadas para a vida das mulheres com participação política e saúde como principais problemas. Primeira ferramenta do país a reunir dados públicos de 5.570 municípios brasileiros, o Índice Municipal de Gênero (IMG), desenvolvido no âmbito do programa Cidades para Mulheres, mostra que o país ainda enfrenta um vazio de informações municipalizadas com recorte de gênero e busca apoiar políticas públicas baseadas em evidências.
O objetivo do IMG é avaliar as condições de vida oferecidas às mulheres nos municípios brasileiros, cobrindo todas as cinco regiões do país. Para a construção do índice foram consideradas sete dimensões: saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, proteção social, infraestrutura e mobilidade, que englobam 17 indicadores, com base em critérios de disponibilidade, qualidade, atualização e cobertura municipal dos dados. Para isso, foram utilizadas bases públicas nacionais, incluindo Censo Demográfico 2022, RAIS 2024, registros eleitorais de 2024, sistemas de saúde de 2024 a 2025, registros de violência de 2021 a 2025 — como SINAN e SINESP — e dados do Programa Bolsa Família. Cada indicador foi pontuado em uma escala de 0 a 100, na qual resultados mais altos indicam condições mais favoráveis para a vida das mulheres, parâmetro semelhante ao utilizado no IDH.
A média nacional do IMG é de 50,60 pontos. O município com maior pontuação no país é Águas de São Pedro (SP), com 67,06 pontos e na outra ponta Uiramatã, em Roraima com 28,14 pontos. Ainda assim, nenhum município ultrapassa 70 pontos ou alcança desempenho alto ou muito alto. Nove em cada dez municípios brasileiros estão concentrados entre 40 e 60 pontos, o que indica uma faixa estreita de desempenho e a inexistência de territórios plenamente adequados para a vida das mulheres.
O Índice Municipal de Gênero (IMG) permite avaliar até que ponto os avanços no desenvolvimento dos municípios se refletem efetivamente na vida das mulheres. A comparação com o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) revela um descompasso significativo. Em 2024, o Brasil ingressou pela primeira vez na faixa de “muito alto desenvolvimento humano”, alcançando um IDHM de 0,805, equivalente a 80,5 pontos em uma escala de 0 a 100. Entre as mulheres, o IDHM foi de 0,798, ou 79,8 pontos. Já o IMG, que possui significativa correlação estatística com o IDHM, registrou média nacional de apenas 50,60 pontos. Em outras palavras, enquanto os indicadores de desenvolvimento humano apontam um patamar próximo de 80 pontos, a realidade captada pelo IMG fica quase 30 pontos abaixo. Essa diferença mostra que os ganhos em renda, educação e longevidade não se traduzem, na mesma proporção, em avanços nas condições que impactam diretamente a vida das mulheres, como participação econômica, representação política e acesso a oportunidades nos municípios.
“Existe um enorme vazio de dados de gênero no Brasil, o que faz com que as mulheres sigam invisíveis e deixem de ser prioridade nas políticas públicas. Ao mesmo tempo, os resultados obtidos com o IMG mostram que hoje não há nenhum município brasileiro atinge patamar alto – acima de 70 pontos, em um paralelo com o IDH – para oferecer condições de vida à s mulheres. Nesse sentido, o IMG se apresenta como uma ferramenta de diagnóstico para guiar políticas públicas e para que os municípios entendam exatamente onde precisam melhorar”, afirma Luciana Sonck, mestre em planejamento territorial, especialista em governança, CEO da Tewá 225.
Os dados do IMG mostram que as desigualdades enfrentadas pelas mulheres estão presentes em praticamente todo o país. Em 87,18% dos municípios brasileiros, pelo menos uma das sete dimensões registra menos de 30 pontos e, em nove de cada dez cidades, participação política ou saúde aparece entre as áreas de menor pontuação. Na média nacional, participação política tem apenas 29,59 pontos, o pior desempenho entre as dimensões, enquanto saúde vem logo em seguida, com 30,42 pontos. O recorte regional mostra que esses gargalos não se distribuem de maneira uniforme: na participação política, o Nordeste registra a maior média, com 38,17 pontos, enquanto o Sudeste apresenta a menor, com 22,14; já na saúde, o Sul aparece com a melhor média regional, 37,29 pontos, e o Norte com a pior, 20,51 pontos.
Em trabalho e renda, o IMG registra média nacional de 40,41 pontos, revelando fragilidades que não se limitam ao acesso ao emprego, mas também às condições que permitem às mulheres permanecerem no mercado de trabalho. A taxa média de ocupação laboral feminina é de 39,48%, e o acesso a creche aparece como uma peça-chave para sua autonomia financeira. De acordo com o IMG, os munícipios com maior cobertura de creches no país (18,4%) possuem melhor pontuação na taxa de ocupação feminina (66,26 pontos).
No caso da saúde, em média, apenas 24,74% das gestantes realizaram seis ou mais consultas de pré-natal e em 614 munícipios esse percentual é zero. A cobertura municipal média do exame de Papanicolau é de 36,14%, com variação de 2% a 93% entre os municípios, o que revela desigualdades profundas no acesso a serviços básicos de prevenção e cuidado. Na participação política, a fragilidade também é estrutural: 68,70% dos municípios não possuem Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, 726 não elegeram nenhuma vereadora e 526 acumulam as duas ausências.
Impactos da subnotificação nos dados de segurança
No Indice Municipal de Gênero (IMG), a dimensão de segurança busca medir o quanto as mulheres estão seguras em seus territórios, considerando registros oficiais de feminicídio, violência doméstica e familiar e estupro, acumulados nos últimos cinco anos e calculados em relação a cada 100 mil habitantes. Embora tenha registrado a melhor média nacional do índice, com 91,88 pontos, essa é também a área em que o vazio de dados aparece de forma mais evidente. No levantamento, 27% deles dos municípios (o equivalente a 1.480 cidades), não registraram nenhum caso de feminicídio. Também há ausência de registros de estupro em 591 municípios e de violência doméstica em 84 municípios, o que indica que pontuações elevadas podem refletir subnotificação, e não necessariamente maior segurança para as mulheres.
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, o equivalente a uma mulher morta por ser mulher a cada seis horas. Foram também mais de 84 mil estupros, uma taxa de 39,5 casos por 100 mil habitantes, e 286 mil registros de lesão corporal por violência doméstica. A violência doméstica é a forma mais registrada: são, em média, 619,85 casos por 100 mil habitantes, chegando a mais de 7.300 nos municípios mais extremos. Por isso, registro zero ou a ausência de dados municipalizados identificados no IMG não devem ser automaticamente compreendidos como territórios livres de violência contra mulher.
Com base na avaliação do Índice, esse cenário pode indicar subnotificação, limitações das redes de acolhimento e registro e a concentração de dados oficiais limitados aos polos regionais de maior porte, o que pode afetar os dados finais e com isso elevar a média nacional dos municípios.
“O fato de que a dimensão da segurança pontuou melhor no IMG é um achado muito importante para o gestor público. Isso porque a ausência de informações é parte do problema, uma vez que sem isso não é possível criar políticas que visem a proteção dessas mulheres e garantam seu bem-viver antes mesmo que seus direitos sejam violados. Por isso, quando o município apresenta zero feminicídios ou zero estupros registrados, isso é um ponto de atenção”, acrescenta Luciana Sonck.
Raça e território
Os recortes territoriais e raciais reforçam a dimensão estrutural das desigualdades, em que mulheres negras e indígenas são mais impactadas. Entre os municípios com piores resultados, há forte presença de população negra e indígena, além de maior concentração na região Norte. Entre os 106 municípios abaixo de 40 pontos, 64,15% estão no Norte; em média, essas localidades têm 70,32% de população negra e 11,05% de população indígena, dez vezes a média nacional.
Capitais não são, necessariamente, referência para a vida das mulheres
O índice também revela que as capitais nem sempre são referência de condições de vida plena para as mulheres. Embora apresentem média superior à dos demais municípios, em apenas 4 dos 26 estados (exceto Distrito Federal que não possui municípios) a capital é o município com maior pontuação no IMG são eles: Curitiba (PR), Aracaju (SE), Brasília (DF), Goiânia (GO) e Boa Vista (RR). O estado São Paulo, por exemplo, 34 municípios superam a capital; no Rio Grande do Sul, Porto Alegre é superada por 54 municípios.
Além das capitais, o Índice apresenta outras diferenças que não são determinadas pela região. Apesar de figurar entre a regiões com condições de vida mais difíceis para mulher, o estado de Pernambuco aparece como destaque positivo, com cerca de 79,46% dos munícipios em seu território com pontuação acima da média nacional comparado a outros estados e regiões no IMG. A frente de Paraná (71,68%), Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Na região norte, Roraima é o único estado do país onde nenhum município alcança a média nacional.
Outros dados do IMG
O Índice também aprofunda dimensões que evidenciam como território, infraestrutura pública e organização social impactam diretamente as oportunidades disponíveis para as mulheres.
A educação também aparece como uma dimensão estratégica para compreender as condições de vida das mulheres nos municípios. Com média nacional de 45,19 pontos, sendo uma das dimensões em que os municípios brasileiros mais se diferenciam. Entre o 1% de municípios com pior desempenho e o 1% com melhor, a distância é de mais de 60 pontos, mostrando que a conclusão da educação básica ainda está distante de alcançar toda a população feminina. As diferenças regionais reforçam o desafio: o Sudeste registra a maior pontuação média, com 51,92 pontos, enquanto o Nordeste apresenta a menor, com 37,72. Por outro lado, todas as 27 capitais estão acima da média nacional com 80,96 pontos, representando o dobro da registrada pelos demais municípios.
O Índice também revela a relação entre escolaridade e renda, onde municípios que oferecem maior acesso a formação de ensino básico também possuem mais mulheres inseridas no mercado de trabalho, a média nacional saindo de 52,32 pontos para 71,92 pontos. O que aponta à formação educacional básica como uma condição decisiva para ampliar oportunidades de trabalho, renda, participação social e acesso a direitos.
Outras dimensões exigem leitura cuidadosa. Na dimensão de proteção social, o IMG combina a proporção de famílias beneficiárias do Bolsa Família e a de domicílios chefiados por mulheres, dois indicadores que precisam ser lidos em conjunto. A chefia feminina pode indicar autonomia, mas também sobrecarga e responsabilidade exclusiva pelo sustento; já o Bolsa Família revela tanto a presença de pobreza quanto o alcance da política pública que busca enfrentá-la. Na média municipal, 44,92% dos domicílios são chefiados por mulheres, percentual que sobe para 48,32% nos municípios mais pobres e para 49,53% nas cidades com mais de 100 mil habitantes. O índice mostra ainda que 32,85% dos municípios têm alta chefia feminina e alta cobertura do programa, enquanto 17,10% combinam alta chefia feminina com baixa cobertura, sinalizando possíveis lacunas de proteção social em territórios onde as mulheres concentram maior responsabilidade familiar. O recorte racial aprofunda a leitura dos dados, já que nos municípios com maior proporção de população negra, a chefia feminina sobe para 48,46% e a cobertura do Bolsa Família chega a 54,75%, evidenciando a sobreposição entre raça, pobreza e responsabilidade familiar feminina.
Em infraestrutura e mobilidade, a média nacional é alta, de 91,35 pontos. Entretanto, segundo avaliado no índice, esse indicador não deve ser analisado isoladamente, porque nos munícipios de até 5 mil habitantes, 2,98% das mulheres gastam mais de uma hora no trajeto diário. Já nas cidades com mais de 500 mil, a proporção é seis vezes maior, chega a 17,98%.
Nos municípios onde se concentram 41,7% da população do país, uma em cada dez mulheres gasta mais de uma hora no trajeto diário casa-trabalho. Os maiores percentuais são registrados em Japeri, no Rio de Janeiro, onde 49,93% das mulheres enfrentam trajetos de mais de uma hora, Francisco Morato, em São Paulo, com 47,09%, e Águas Lindas de Goiás, com 45,37%. São municípios situados nas periferias de regiões metropolitanas, cuja população é majoritariamente negra. Nos 200 municípios com maior proporção de deslocamentos longos, a população negra representa 62,74%, contra 55,72% nos demais.
Assim, mesmo essa dimensão com uma pontuação alta não significa que a mobilidade das mulheres esteja plenamente resolvida nos municípios brasileiros porque a proporção de mulheres que levam mais de uma hora no deslocamento entre casa e trabalho, não captura a segurança do trajeto, a qualidade do transporte público nem os deslocamentos fragmentados associados ao cuidado, como levar filhos à escola, acessar serviços de saúde ou realizar tarefas domésticas.
Os resultados do Índice Municipal de Gênero enfatizam que as desigualdades enfrentadas pelas mulheres nos municípios brasileiros não se explicam por uma única dimensão, mas pela combinação de barreiras e interseccionalidades.
“O IMG é uma ferramenta que pode colaborar com uma agenda de políticas públicas para as mulheres baseadas em evidências, de acordo com todas as complexidades de vida nas cidades. Não podemos lembrar das mulheres apenas quando elas aparecem nas estatísticas de violência, isso é a ponta do iceberg. Devemos antes disso, avaliar os fatores que determinam seu acesso a direitos. Com o IMG isso é possível, especialmente se superarmos a lacuna de dados de gênero nos municípios, já que sem dados não há diagnóstico e política pública. E isso também é uma decisão política”, finaliza Luciana Sonck.
Para acessar o indice completo entre em (aqui).
Sobre a Tewá 225
A Tewá 225 é uma consultoria que realiza estudos e projetos para enfrentar problemas socioambientais das empresas, organizações e governos. Desde 2013, emprega uma metodologia própria de escuta e participação social na construção de estudos e soluções com recortes de gênero, raça, territorialidade e gestão do conhecimento, sendo responsável pelo estudo Piores Cidades para Ser Mulher, que mapeia municípios e capitais brasileiras nas metas do ODS 5 (Igualdade de Gênero). A empresa já atuou com mais de 50 empresas e organizações, como Unesco, ONU Mulheres, GIZ, WRI, OIT, Unicef, reNature, Auren Energia, Tereos, Fundação Tide Setubal e Instituto Votorantim, em mais de 50 cidades de todas as regiões do país. A Tewá 225 é composta 100% por mulheres, certificada pela Rede Mulher Empreendedora, membro da rede Parceiros Pela Amazônia (PPA) e signatária do acordo “Race to zero” (compromissos de redução de emissões de carbono ou neutralização de suas emissões), pelo qual também integra a rede SME Climate Hub.

