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Ele viu e acreditou

Dom Pedro José Conti
Dom Pedro José Conti

O anúncio da ressurreição de Jesus, o crucificado da Sexta-feira, foi a boa notícia que os cristãos espalharam pelo mundo. Acreditar no inaudito – ou seja, algo nunca ouvido antes! – não foi fácil e nunca o será. Não entra na nossa experiência comum. Até a morte, chegamos. Para ir mais adiante, precisamos aprender a olhar além do imediato, do palpável, do já vivido. Desde o amanhecer daquele dia, muitos acolheram aquela notícia como a melhor de suas vidas. Uma esperança capaz de iluminar uma existência inteira. Por causa desta fé, muitos foram – e ainda são – perseguidos, condenados, marginalizados, considerados loucos. No entanto contam que os mártires cantavam hinos na frente das feras. Houve quem chegasse a perdoar publicamente os seus algozes. Outros mor reram rezando e oferecendo as suas vidas. Muitos, enfim, deixaram este mundo na certeza de serem acolhidos nos braços de Deus, Pai misericordioso. O mesmo Pai que tinha ressuscitado Jesus.

A morte de todos nós não é somente o momento final da nossa vida. Morremos como vivemos. Não levamos absolutamente nada de material, mas carregamos, isso sim, com certeza, a bagagem de tudo aquilo que acreditamos e para o qual gastamos toda a nossa existência: sentimentos, esperanças, fé e o bem que fizemos ou que deixamos de fazer. Ninguém morre vazio, porque todos acreditamos em algo ou em alguém. Se fosse o contrário, simplesmente deveríamos reconhecer que o tempo passou, mas não vivemos. O vazio ou a plenitude – ou seja, o sentido da vida – já devemos encontrá-los neste mundo. Mas deve ser antes do fim; depois não haverá mais o tempo.

Estas minhas palavras são um convite para todos, cristãos e não, com muita fé, pouca ou nenhuma, para parar e refletir. Penso que podemos colocar a existência humana de hoje entre dois extremos: de um lado a competição e do outro a indiferença. Assistimos a uma busca desenfreada pelo bem-estar, uma luta constante para sobressair, passar na frente dos outros e, na prática, ganhar mais. Gastamos tempo e energias para afirmar que somos os melhores. A vida parece uma disputa. Será que é vida mesmo? Do outro lado, para alguns, viver significa desistir de ter motivações. Aliás, significa se satisfazer com o consumo dos últimos lançamentos, embriagados pelas novidades da moda e da tecnologia. Quase uma autocontemplação por estar sempre atualizados em tudo. Para viver assim não precisam se ntimentos, sonhos, esperanças. Será que esta é vida mesmo?

Entre os dois extremos, provavelmente, estamos também nós. Um dia atordoados pelas conquistas e pelas compras; outro dia, alienados pela avalanche de notícias, e-mails, mensagens no celular. Onde colocar a fé na ressurreição? Ainda tem um lugar para ela em nossas vidas? Acreditar na ressurreição é buscar caminhos novos que nos libertem das amarras do nosso egoísmo e dos nossos interesses. Precisamos enxergar mais longe, com outros olhos. Viver mesmo é encontrar e acreditar nas pessoas, não nas coisas. Dar atenção, vibrar, com quem compartilhamos a vida, feito de carne e ossos como nós, carente de afeto, carinho, precisando de alguém para escutar as suas dúvidas, talvez um ombro para chorar ou sorrir junto. Esses são gestos simples, não precisa dinheiro e nem roupa de boutique; s&o acute; podem vir do coração e só valem se são oferecidos, doados e recebidos com amor.

Entre uma vida amarga, cheia de disputas fracassadas e uma vida fria sem sentimentos, temos a possibilidade de amar, viver a fraternidade, o perdão, a partilha, a acolhida do diferente, do pequeno, do sofredor. Foi assim que Jesus viveu. Uma vida curta, sem bens, até sem família, mas foi uma vida plena, vivida com uma força de amar extraordinária, capaz de vencer o ódio e a morte. Vida verdadeira. Vida que, por isso, nunca mais morre. Ter fé mesmo – ser cristãos – é procurar viver como Jesus, arriscar confiando na sua palavra, comprometer-nos com uma causa grande, maior do que todos nós, a causa do Reino que Jesus veio iniciar. O Reino da Vida. Pergunto: será que precisa ver antes para crer ou precisa ter a coragem de crer para ver o Reino acontecer?

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