Viagem Musical a Minas

O espírito de Minas me visita, lembrei de Drummond/Não a Savassi, das compras chiques/Não a fingidora rua do Amendoim, que nega a física, embora traduza a nossa crença na magia do crer/Mas a Minas que o poeta disse, com a inspiração dos confins de Itabira do Mato Dentro, de ferro, fotografia na parede/A Minas que me visita é aquela que traz as violas de Ibiá e Betim, com suas noites frias e sem ar de cidade grande/Na memória, revive a Betim que canta a alma de Minas/Que só mineiro compreende por inteiro.
Ao reencontrar Belo Horizonte na véspera de um 21 de abril, a caminho de Ouro Preto para trabalho jornalístico nas comemorações da Inconfidência, já se iam 27 anos da época em que vivi na cidade. No piano-bar do hotel, cometi as mal traçadas linhas que encimam a crônica. Um poema? Talvez, se o conceito admitir como tal o mero olhar contemplativo a um tempo musical passado.

Ao piano, um músico genial, cego de nascença, conforme trombeteia o garçom, tocava Villa-Lobos, João Pernambuco, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga. Tocou Trenzinho Caipira. Meti-me a poeta. Perdão, pois.

Pela manhã, de carro a Ouro Preto, as imagens de Minas do final dos anos 1970 disputavam neurônios com a solene pauta. Renitente, uma imagem mostrava meu irmão Francisco – então operário da Fiat e músico – numa roda de viola em Betim, sob frio cortante, fogueira acesa embaixo de árvore fronteira à casa tipicamente mineira da anfitriã Cleonice. Não posso precisar, mas ali certamente alguém tocou Trenzinho Caipira.

A viagem musical não terminaria em Ouro Preto, como previra, por imposição da pauta. Em meio a ministros, governadores e artistas distinguidos com a medalha da Inconfidência, Inezita Barroso, primeira-dama da música caipira (aquela tradicional, purinha), roubou a cena. Eu, uma foto e um dedo de prosa com ela.

À primeira-dama da música do Brasil profundo, curvaram-se, paulistanamente, Palocci e Alckmin, além do governador Aécio e do povo que lotava a Praça Tiradentes.

De volta a BH, três da tarde, um cafezinho no balcão da lanchonete do aeroporto dos Confins. Jorge Ben Jor, que fizera show madrugada adentro, aparece para devorar uns salgadinhos com café, antes de embarcar para o Rio. Puxo conversa:

– O Paulinho da Viola diz que vida de artista não é só subir no palco e ganhar aplausos. Tem que ralar.

– Paulinho está coberto de razão – ele concorda.

Ben Jor fala bem do show, e muito mal dos historiadores da música popular brasileira. Desanca autores e editores que gastam rios de tinta com livros sobre a vida de artistas sem consultar os biografados. “O Livro de Ouro da MPB”, do maestro Ricardo Cravo Albin, minha leitura de bordo, não escapa.

Ben Jor folheia a obra, mostro-lhe a sua fotografia à página 346. Ele sentencia, temendo a inclusão de alguma nota dissonante à sua trajetória: “Taí, ninguém falou comigo”.

O burburinho na lanchonete chama nossa atenção para uma mesa três metros adiante. Lá, vigiado por seus músicos, o cantor George Benson dorme a sono solto, concorrente que fora de Ben Jor na agitada madrugada de Beagá. Paulinho da Viola, mais uma vez, na mosca: Benson tem que ralar. “É mesmo o Benson!”, reconhece Ben Jor. Um assessor de Benson reconhece o artista brasileiro. Diz que o cantor norte-americano aprecia o suingue de Ben Jor.

No Galeão, que o Rio de Janeiro em boa hora rebatizou de Antônio Carlos Jobim, escala do meu vôo de volta a Belém, testemunho Ben Jor fechar parceria inédita com Benson para um show em São Paulo. Na página 231, sobre foto do maestro Tom Jobim, Benson deixou autógrafo no meu livro. Na 346, Ben Jor, com sua marca registrada, carimbou: “Salve, simpatia”.

Quero voltar urgente pra Minas. Eita pautinha boa, sô.

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Euclides Farias é jornalista, 58 anos de idade e 39 de profissão exercida nos jornais Marco Zero (AP), O Liberal, A Província do Pará, Agência Nacional dos Diários Associados (ANDA), Rádio Cultura, Jornal da Tarde (SP) e Folha de S. Paulo. É editor de coluna no Diário do Pará.

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