O submarino da Vigia

Brava gente, vigienses e bragantinos não se dão bem. Nada que não se possa comparar a uma declaração de guerra iminente entre as duas valentes cidades do nordeste do Pará. São desinteligências miúdas que atravessaram o tempo e algumas já até viraram folclore mesmo. Mas, previno, se topar com um vigiense e um bragantino na mesma mesa, não se surpreenda se rolar alguma farpa, espinha de peixe atravessada na garganta, fino sarcasmo manifesto ou, vá lá que seja, leve sorriso sardônico. A guerra, essa é uma incógnita.

As rusgas vêm de épocas imprecisas e vão se perpetuando mais por conta da força da oralidade das histórias do que algum registro documental, passado em cartório e assinado embaixo Deus. De um lado e de outro, sem que nunca tenha havido desembainhar de espadas e consequente deposição de armas dos vencidos, sempre tem algum vigiense espezinhando bragantino e bragantino falando mal das vigilengas. Aliás, se quiser arrumar confusão com vigiense, fale mal das vigilengas.

Boa de briga, último reduto da heroica Cabanagem, a Vigia, se preciso for, arregimenta toda a experiência bélica acumulada contra os portugueses para enfrentar Bragança. Já foi testada. As tropas leais à Coroa acossaram os revoltosos no Trem de Guerra e acabaram causando uma das maiores diásporas do Brasil Colônia. Fugindo, os vigienses criaram colônias nas mais distantes cidades da Amazônia.

Festeiros também, fundaram associações vigienses por todas as terras prometidas para congraçar. Em Macapá, no Amapá, existia (existe ainda?) uma bem frequentada dessas agremiações.

Sem grandes bravatas bélicas para contar e com o empate sacrossanto entre os padroeiros Nossa Senhora de Nazaré e São Benedito, os desbravadores bragantinos se agarram nos dormentes da extinta ferrovia Belem-Bragança e na farta ironia para rivalizar com os vigienses.

Ferina, a turma da Pérola do Caeté, como sua terra natal é imodestamente chamada, vai no calcanhar vigiense quando diz que gurijuba boa mesmo – o peixe é de devoção nas duas cidades – só tem em Bragança. “A gurijuba da Vigia tem gosto de barro”, costumam desdenhar. Os vigienses, claro, querem a morte e pensam em desenterrar os canhões cabanos para invadir e anexar a difamadora.

O levante só não acontece porque em Vigia há gente pacifista como o poeta José Ildone e o jornalista Nelio Palheta desaconselhando a solução final e em Bragança o verde José Carlos Lima também dá uma acalmada no meio ambiente.

Há três anos, porém, um novo colapso esteve à beira de acontecer e chegou a movimentar esquadras nos rios Guajará-Miri e Caeté. Só mesmo uma arrojada diplomacia externa e até extrassensorial, com convincente aconselhamento à paz de Domingos Antônio Raiol, o Barão de Guajará, foi capaz de evitar a hecatombe aos bragantinos provocadores.

A razão da justificada nova revolta vigiense foi a gozação dos bragantinos diante de uma operação da Polícia Federal que descobriu que os traficantes estavam construindo um submarino numa ilha nem tão erma assim da Vigia, vizinha de Colares, cidade que já viu coisas de outro mundos com seus ET’s e discos voadores. Os brangantinos se espocavam de rir dos vigienses pelos mangues da costa atlântica.

Quer ver como era?

Dois pescadores bragantinos conversavam em suas canoas grandes com âncoras jogadas perto da praia de Ajuruteua:

– Compadre, o senhor sabe que os vigienses estão construindo um submarino?

– Cruz credo, compadre. É pra atacar Bragança?

– Diz que é…

– Pois vou rogar uma praga, compadre. Anote aí. Esse submarino vigiense não vai afundar. Vai ficar boiando por lá. Se afundar, não vai navegar. Se navegar, não passa de Colares…

Um dia, Vigia ainda perde a paciência.

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Euclides Farias é cronista e jornalista, 59 anos de idade e 40 de profissão exercida nos jornais Marco Zero (AP), O Liberal, A Província do Pará, Agência Nacional dos Diários Associados (ANDA), Rádio Cultura, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde. É editor de coluna no Diário do Pará.

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A ilustração da crônica é do internacionalmente premiado cartunista JBosco Azevedo.

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