De iletrado a Reitor

Há pessoas que nascem com o dom de ensinar e o fazem mesmo que lhes faltem brilho acadêmico e os diplomas na parede, que têm o condão de elevar o ofício inato. Antes de se transformar num fenômeno educacional, foi isso o que aconteceu com Leonil Pena Amanajás, que morreu ontem, em São Paulo, aos 81 anos, como fundador da primeira instituição de ensino superior e um dos maiores nomes da história do magistério do Amapá.

Leonil nasceu na beirinha do oceano. En la orilla del mar, diria Bienvenido Granda. Ali o rio Amazonas deságua. No arquipélago do Bailique, na costa leste do Amapá, com suas oito ilhas e hoje mais de 7 mil habitantes, parece que tempo está parado desde que o mundo é mundo. Foi lá, com a brisa que sopra do Atlântico arejando as ideias, que o iletrado Leonil teve o insight de que poderia virar professor leigo na escola agrícola local.

Iluminado, fez de sua aldeia a base de lançamento para interiores maiores até chegar a Macapá, na década de 1950. A obstinação pela sala de aula, que o fez continuar exercendo o magistério sem título por muitos anos, levou-o a nova reviravolta. Quando a UFPA criou um núcleo na cidade, Leonil entrou lá e só saiu depois de conquistar três diplomas: Letras, Administração e especialização em Metodologia do Ensino Superior.

Depois de exercer inúmeros cargos que lhe valeram reconhecimento público, incluindo o de secretário-adjunto de Educação, aquele caboclinho iletrado do Bailique fez em 1992 a maior façanha educacional de sua rica existência: fundou o Centro de Ensino Superior do Amapá (CEAP) e virou reitor.

Leonil foi meu professor de Português em meados da década de 1970 em Macapá, no extinto Colégio Comercial do Amapá (CCA). Homem simples, fala mansa e carregada no linguajar caboclo, ele era muitíssimo bem-humorado. Gostava de contar histórias engraçadas que a vida foi lhe permitindo colecionar pelos interiores.

Fazia blague com tudo que julgasse a serviço da alegria pedagógica em sala de aula e nos corredores do colégio. Sua inspiração, claro, vinha sempre da vida ribeirinha. Até a própria limitação confessa entrava na lista das anedotas de Leonil. A turma se encarregava de apimentar a bravata:

– Em matemática eu não me agaranto, mas em português eu du chú (show)!

Desculpa aê a brincadeirinha, Leonil.

Que a terra lhe seja leve, meu mestre.

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