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Capacidade de perdoar está relacionada ao bem-estar

Considerada uma virtude em todas as religião, ciência mostra que a prática pode fazer bem até mesmo para o coração

Alex Bessa

Trata-se de um homem comum que, depois de uma consulta com um famoso psicanalista, se vê envolto em bizarros acontecimentos. Imobilizado por um potente sentimento de culpa, ele se ressente e não consegue perdoar nem a si próprio, nem à sua irmã, com quem divide um tumultuado passado que por anos tentou esquecer. Cada vez mais fragilizado, uma chaga se abre em seu peito, mas dela não escorre sangue e, sim, um lodaçal.

Publicado no livro “O Convidado”, o conto “O Lodo”, cuja sinopse é apresentada no parágrafo que abre esta reportagem, é permeado por características do universo fantástico do escritor Murilo Rubião (1916–1991). O texto, aliás, arrebatou o diretor mineiro Helvécio Ratton, que levou a trama para as telonas em um filme homônimo ao conto, lançado em janeiro deste ano, durante a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

A história, na literatura ou no cinema, é também alegórica sobre como a inabilidade de exercer o perdão pode ser um fator a desencadear uma série de transtornos. “Há um lodo que acaba extravasando pelos mamilos e que é quase metafórico, algo que está dentro e emerge”, disse o cineasta formado em psicologia – embora nunca tenha exercido a profissão –, à época da estreia.

O fato de o lodaçal ser expelido do peito é algo especialmente simbólico: há estudos que relacionam o guardar rancor a um maior risco cardiovascular. Caso de uma pesquisa apresentada no ano passado durante o 40º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e que foi desenvolvida pela psicanalista Suzana Avezum, ligando a dificuldade de perdoar à ocorrência de Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).

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Ato traz mais qualidade de vida

Os benefícios atrelados ao ato de perdoar são discutidos há milênios. O tema é presente na filosofia e é recorrente nas mais diversas religiões. A partir dos anos 80, com o advento da chamada psicologia positiva, a prática começou a ser estudada também do ponto de vista da saúde integrativa. “Trata-se de uma condição fundamental para que se tenha qualidade de vida”, ratifica a psicóloga e psicanalista Maraísa Abrahão.

Remoer situações do passado ou se acabar em remorso é o equivalente a “jogar a âncora e ficar parado naquele episódio que originou algum sofrimento”, compara. Para escapar dessa paralisia, vale o esforço do desapego: ela avalia que a incapacidade de perdoar vem de uma idealização do outro e de si próprio, de forma que um tipo de perfeição passa a ser exigido. “Precisamos entender que somos todos seres humanos, que somos falíveis”, pontua.

“O perdão é uma escolha minha sobre o que está diante de mim”, aponta a psicóloga clínica Leni de Oliveira. O atual cenário, aliás, é importante para o exercício dessa habilidade. “Na quarentena, quando os conflitos podem aparecer mais recorrentemente devido à inesperada proximidade, esse é um exercício básico”, recomenda.

Maraísa defende que, para desculpar alguém, é importante tomar distância dos acontecimentos. “Assim, conseguimos equacionar melhor o episódio e os sentimentos que foram despertados por ele”, pontua. E ela mesma alerta que, não, a remissão da culpa não é um sinônimo de apagamento daquela história da memória. “Esquecer é amnésia. Perdoar já é lembrar, sim, mas não sofrer. É você colocar essa equação no lugar, entender que todo mundo erra. Levantar-se e fazer o melhor, sem ter que ser perfeito e sem ter que exigir do outro a perfeição”, conclui.

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