Cássia Eller: Mesmo após duas décadas sem a cantora, a voz potente da artista nunca se calou perpassando gerações

Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS — O mês de dezembro está chegando ao fim e traz consigo as memórias que potencializam a saudade deixada por Cássia Eller. Eleita em 2008 uma das maiores artistas nacionais pela revista Rolling Stones, a cantora fez história na música brasileira. Em todos os anos, fãs, artistas, amigos, familiares e aqueles que respeitam o legado deixado por Cássia têm o sentimento de admiração aflorado no mês em que se celebraria seu aniversário e também os 20 anos de morte da dona de uma das vozes mais marcante do País.

Nascida no dia 10 de dezembro de 1962, no Rio de Janeiro, Cássia Rejane Eller partiu precocemente no dia 29 do mesmo mês, no ano de 2001. A perda da cantora, compositora e multi-instrumentista, em decorrência do infarto do miocárdio, encerrou a estrada promissora da artista que vivia o auge da carreira por conta do sucesso do CD e DVD ‘Acústico MTV’, chegando a vender mais de um milhão de cópias e considerado um dos melhores acústicos produzidos pela rede de televisão.

Ao longo do tempo, a dor e a tristeza pela partida inesperada foram tomadas por tributos cheios de carinho e boas lembranças, como é o caso do músico Walter Vilaça. O famoso guitarrista brasileiro, que já trabalhou com vários nomes de peso do cenário musical, atuou com Cássia Eller por oito anos e faz questão de manter viva a memória da parceira musical.

Cássia Rejane Eller (Reprodução/ Divulgação)


“Trabalhei com Cássia por quase oito anos e foi a melhor experiência que tive na minha vida. Oh! Sorte!”, diz o músico em entrevista à CENARIUM. Para Vilaça, compartilhar com ‘Cassilda’, como ele a chama carinhosamente, os acordes dos violões no início da jornada é um momento que ficou marcado na memória.

“Todos os trabalhos que fiz com ela me marcaram muito, mas tenho um carinho especial com os violões, que foi quando comecei a trabalhar no início de minha carreira musical”, relembra o músico que ressalta: “Gosto de todos os álbuns e shows, e como vivi isso, sou bem suspeito para falar, mas o show do Rock in Rio ficou para a história. E para os que ainda não viram, fica a dica”, destaca Walter.

Quando questionado qual o principal legado deixado por Eller tanto como artista quanto como pessoa, Walter logo dispara. “Cássia foi uma das maiores cantoras e intérprete do mundo e ela deixou um legado indiscutível como força feminina, sem qualquer tipo de preconceito. Ouçam a obra de Cássia porque é essencial para os bons ouvidos. A música cura e Cássia é de extrema importância para nossa cultura”, aconselha o músico.

Tributos e laços
Uma das parcerias mais conhecidas de Cássia foi com o cantor e compositor Nando Reis. Além de uma relação de trabalho, os dois construíram uma bonita e forte relação de amizade que resultou, inclusive, em uma das canções feitas por Nando que foi dado de presente para a amiga, onde ele poetiza o bairro carioca Laranjeiras, na letra de All star (2000).

No último dia 10 de dezembro, o cantor postou em seu canal no YouTube um vídeo para comemorar a data emblemática, que resultou até mesmo em um álbum póstumo produzido por Nando, intitulado ‘Dez de Dezembro’. No vídeo ‘Lembranças de Cássia Eller’, Nando responde várias perguntas e curiosidades dos fãs sobre a relação dos dois.

Dentre as revelações está sobre os gostos musicais de Cássia, conversas mais íntimas, primeiras impressões. Uma das frases de destaques do cantor que sempre declarou apaixonado pela pessoa de Cássia foi sobre como descreveria a amiga e artista.

“Ela era uma pessoa fascinante nas suas complexidades, nas faces ocultas insondáveis, misteriosa. O que é sempre de uma pessoa sofisticada do ponto de vista de sua composição. Está tudo ali na música dela e na forma como ele interpreta, o que posso falar é, ouçam os discos dela, porque nada do que eu venha a falar chega perto daquilo que era a Cássia e a totalidade da Cássia que ninguém alcançou está na obra dela”, descreveu Nando Reis.

Imagem da gravação Cássia Eller Acústico MTV (Reprodução/ Divulgação)


Ícone
Para o produtor musical e cantor Mencius Melo, a figura de Cássia Eller é um ícone da música, de atitude e postura de palco. O artista amazonense, teve a oportunidade de ver de perto as performances da cantora que é, inclusive, uma das referências musicais do artista.

”Cássia Eller é uma heroína da música contemporânea, um mito que perpassa gerações. Sua postura que unia atitude, firmeza e sensualidade era ímpar. Ninguém cantou o feminino com tanta agressividade como ela. Cássia chegava a hipnotizar quem a assistia no palco. Ela não era somente música, Cássia Eller foi uma atitude. Uma voz necessária. Uma provocação estranha que jamais encontrou similaridade na música brasileira. Após 20 anos de sua partida ouço sua música, interpretação, aquele vozeirão e tudo que sinto é gratidão e uma enorme saudade”, afirma Mencius.

Legado LGBTQIA+
Bissexual assumida, Cássia teve um filho com o baixista e compositor brasileiro Tavinho Fialho, falecido de acidente de carro pouco antes do nascimento do filho, Francisco Eller. Em um país onde os direitos das pessoas LGBTQIA+ são quase nada, a guarda de ‘Chicão’, à época com 8 anos, foi para a companheira Maria Eugênia. A morte da artista foi um marco histórico para a comunidade, abrindo precedentes para outros casos de guarda entre casais homoafetivos.

O fato abriu espaço para o debate e a aceitação do novo formato de família brasileira, discutido até hoje. Atualmente, já adulto, volta e meia Chico, nome artístico adotado por Francisco Eller, fala sobre a importância e legado deixado pela mãe sobre o tema. Em entrevista para o UOL, em janeiro deste ano, Chico se diz um admirador da história e luta das mães em nome do amor e companheirismo.

“Eu admiro muito a batalha das minhas mães. Sem dúvida nenhuma é parte de quem eu sou, e tenho muito orgulho disso. Elas se casaram. As duas são filhas de militares e mesmo que mais tarde tenha ficado tudo bem, tiveram que enfrentar a resistência da família. A gente tende a romantizar essas narrativas, de lutar pelo amor que tudo dá certo no final. Mas precisa mesmo ser uma guerra que se vence só no final? Não pode ser mais simples?”, questiona o também cantor.

Cássia, o filho Francisco e a então companheira Maria Eugênia (Reprodução/ Instagram)


‘Espírito do Som’
Com uma discografia com canções de gêneros variados, recentemente a cantora teve a voz emplacada nas plataformas musicais com o lançamento de ‘Espírito do Som’, de Péricles Cavalcanti e Chico Evangelista. A música é um blues apresentado em um show em Brasília, no ano de 1985, e marca uma sequência de homenagens à cantora, que serão realizadas em 2022 em celebração ao 60 aniversário de Cássia.

Ao longo da vida, Cássia Eller passou por diferentes cidades como Minas Gerais, Belo Horizonte, Santarém, no Pará, e Brasília, lugar onde começou a trabalhar com música. Cantou em corais, forró, participou de um grupo de samba, cantou com Oswaldo Montenegro e começou a despontar na década de 1990.

Com o cd Acústico garantiu o prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro daquele ano e consequentemente entrando para uma agenda exaustiva de shows. No período de maio a dezembro de 2001, a artista fez, ao menos, 95 shows.

Faltando dois dias para finalizar o ano de sucesso e consagrado para a cantora carioca, Cássia não resistiu após sofrer três paradas cardíacas, na clínica Santa Maria, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. À época, muito se especulou que a motivação da partida precoce teria sido causada por uso de drogas, informação que não procedia após a comprovação de exames toxicológicos.

Os resultados dos exames iam de encontro com a declaração dada pela cantora em entrevista para uma revista onde afirmava estar livre das drogas há pelo menos dois anos. Mesmo após a morte, Cássia alcançou mais de dois milhões de ouvintes no Spotify, prova de que mesmo não presente fisicamente, a morte não calou a voz da cantora ‘espírito do som’.

Assista ao vídeo:

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