Comitê indígena antiCovid é criado após extinção do povo Juma, 63 mil casos e mais de 1 mil mortes

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – O governo federal esperou que a Covid-19 causasse a morte do último homem do povo Juma, em Rondônia, para criar um comitê de enfrentamento à doença entre as populações tradicionais do País. O grupo foi anunciado nessa terça-feira, 11, no Diário Oficial da União (DOU), quase dois anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia da doença.

Agora, em 2022, a consequência é a morte de 1.253 integrantes de povos originários, mais de 63 mil infectados e 162 povos afetados, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), além do extermínio quase completo de uma etnia por conta da negligência. 

O guerreiro Aruká Juma, ainda em vida, e as três filhas casadas com indígenas Uru-Eu-Wau-Wau. (Pedro Bentes/Kanindé/Reprodução)

Perdas irreparáveis

Guerreiro de seu povo, Aruká Juma morreu em fevereiro de 2021 no Hospital de Campanha de Porto Velho. Agora, com as três filhas casadas com integrantes da etnia Uru-Eu-Wau-Wau, na tentativa de dar continuidade à linhagem, os netos do líder indígena carregam no sangue a herança histórica desses dois povos.

“Se isso [o comitê indígena] tivesse sido colocado em prática antes, isso não teria acontecido (…) a gente teve inúmeras e grandes perdas, a exemplo do próprio Aruká Juma, que era o último homem daquele povo. É o tipo de coisa que não se recupera”, lamentou a ativista e fundadora do movimento Juventude Indígena de Rondônia, Txai Suruí, em entrevista à CENARIUM

Para Txai Suruí, a demora em tomar a decisão levou a perdas irreparáveis. (Nadja Kouchi/TV Cultura)

Txai conta, também, que perdeu a avó materna e os tios para a Covid-19 e relembra que foi desesperador esperar por uma atitude do governo federal logo no início da pandemia. “O meu povo mesmo, o povo Paiter Suruí, foi um dos mais afetados no Estado de Rondônia. A gente perdeu os nossos sábios, a gente perdeu as pessoas que a gente ama. Era uma situação horrível, uma situação de desespero”, disse a jovem, que também é assessora jurídica da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

Outro exemplo é do cacique Gaami Suruí, de uma das aldeias da mesma etnia, em Cacoal (RO), distante 480 quilômetros de Porto Velho.  Cansado de aguardar por ajuda, no ano de 2020, quando pegou a doença, apelou para o chá da casca de uma árvore medicinal que cresce no território. Para ele, foi o remédio que o salvou da Covid-19. “Passei muito mal. Tinha certeza que esse remédio que eu tomei [era] para poder [a Covid-19] chegar mais fraca um pouco comigo”, revelou o cacique.

Decisão tardia

O recém-criado comitê é uma resposta à determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, feita ao Executivo Nacional ainda em 2020 para criar um plano contra a doença e em favor das etnias indígenas. 

O colegiado fica sob a responsabilidade e coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública (SJSP), devendo criar e monitorar planos de enfrentamento, adotar medidas de proteção e promoção da saúde, tanto de forma geral quanto no contexto da pandemia, contemplando os povos isolados ou recentemente contatados. Ao todo, 13 órgãos e entidades compõem o grupo. Entre eles, a Funai e diversos ministérios do governo. Por outro lado, quem entende do assunto, acredita que ainda falta participação.

“É muito importante frisar quem vai participar dessas reuniões, quem vai ter poder de voto. Precisa deixar claro: é para povos indígenas de recente contato, para indígenas isolados ou para todos os indígenas? Porque muitos indígenas têm mais contato com os não indígenas, mas eles vivem numa situação de distância enorme”, questiona o presidente da ONG Doutores da Amazônia, Caio Machado.

“É muito importante, também, frisar que os Condisis, os Conselhos Distritais de Saúde Indígena, que são órgãos dentro do Dsei [Distrito Sanitário Especial Indígena], façam parte disso. Eles precisam ser atuantes e ter os Condisis fortes para tomar as decisões para estar protegendo, de forma efetiva, esses povos”, pondera ainda.

O especialista em Saúde Indígena e presidente da ONG Doutores da Amazônia durante ações de assistências aos povos indígenas. (Reprodução/ Doutores da Amazônia)

Para Machado, apesar de positiva, a criação do comitê foi muito tardia. Se não fosse a ajuda dos doutores da Amazônia, por exemplo, entre os anos de 2020 e 2021, 48 povos de Rondônia, Amazonas e Mato Grosso teriam ficado desassistidos. Durante este período, a ONG levou 80 toneladas de produtos de higiene e prevenção à Covid-19 e prestou mais de cinco mil atendimentos com médicos, biomédicos, dentistas e assistência farmacêutica. 

“A gente foi a primeira organização que atuou, que teve a permissão para adentrar numa terra indígena na pandemia, que foi no ano de 2020, no qual a gente viu, nessa entrada, de 50% a 60% dos indígenas do vale do Guaporé [em Rondônia], que é uma região de difícil acesso, contaminados. Com certeza esse comitê já ia estar ajudando muito”, declarou à CENARIUM.

“Quando a gente fala para os indígenas ficarem nas aldeias deles, é muito fácil falar, com todo o acesso aqui nas nossas cidades. Muitas vezes, para essas regiões, onde em qualquer emergência dá um trabalho muito grande, estar levando a saúde nesses momentos é muito importante e isso aconteceu graças às organizações não governamentais que o fizeram e apoiaram”, concluiu o ativista e especialista em Saúde Indígena.

Txai Suruí segue a mesma linha de pensamento e espera, agora, por uma atuação satisfatória do governo brasileiro. “Eu espero que, apesar de tardias, essas coisas sejam realmente colocadas em prática, porque o que a gente está vendo é, de novo, uma crescente onda de Covid-19 no mundo inteiro, da Ômicron, enfim. A gente ainda está sujeito a isso. Pela Constituição, a gente também tem uma saúde especial e é isso o que não está sendo feito”, finalizou. 

Veja mais sobre o comitê antiCovid na reportagem da Cenarium exibida no Jornal da Cultura

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