Como a leitura contribui para a conscientização sobre as mudanças climáticas
Narrativas da floresta ganham espaço em bibliotecas comunitárias e revelam como a literatura pode inspirar crianças e jovens a pensar sobre questões como identidade, pertencimento e soluções para a crise climática
A literatura pode ser um caminho sensível para pensar futuros possíveis em tempos de crise ambiental. Na Amazônia, histórias que misturam ficção, memória e saberes tradicionais ajudam crianças e jovens a refletir sobre sua relação com o território e os impactos das mudanças climáticas. É esse encontro entre literatura e floresta que nasceu na ONG Vaga Lume, organização sem fins lucrativos que há mais de duas décadas constituí bibliotecas comunitárias junto com comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e rur ais nos novos estados da Amazônia Legal.
Para Lia Jamra, diretora-executiva da Vaga Lume, a literatura é um convite à reflexão e à transformação. “A literatura não nos dá respostas prontas, mas desperta perguntas fundamentais. Ao vivenciar as histórias e os saberes da floresta, as crianças percebem que o clima não é uma pauta distante, mas parte da sua própria identidade”, afirma.
A curadoria dos acervos da Vaga Lume privilegia livros que abordem tanto a preservação ambiental quanto a relação entre o indivíduo e a natureza. Autores indígenas, quilombolas e ribeirinhos ocupam posição central, trazendo para o debate a experiência de quem vive diariamente na floresta e carrega conhecimentos ancestrais sobre preservação e modos de vida sustentáveis. “Nosso cuidado não é apenas selecionar bons livros, mas obras que provoquem reflexão. Ao valorizar autorias indígenas, quilombolas e ribeirinhas, damos centralidade a vozes que há séculos preservam a Amazônia”, diz Jamra.
Em 2025, a Vaga Lume ampliou suas ações junto às comunidades da Amazônia voltadas para temas climáticos e ambientais. Entre as iniciativas foram um intercâmbio de jovens em Castanhal (PA), que resultou na elaboração de um manifesto coletivo em defesa da floresta; processos de escuta com as comunidades para compreender como elas percebem as mudanças climáticas; e o lançamento de um guia de atividades para a Semana da Amazônia, que estimula a mobilização local em torno de reflexões sobre a importância da floresta e sua preservação. Ao longo desse percurso, a organização também inaugurou uma biblioteca conceito no Pará, fortalecendo o acesso à leitura como estratégia de formação e engajamento socioambiental. “Garantir acesso a essas narrativas é também um ato político. A literatura pode ser um caminho para a justiça climática ao considerar os saberes tradicionais como parte das respostas à crise”, afirma Jamra.
As ações, no entanto, vão além de iniciativas pontuais. Elas se consolidam no cotidiano das rodas de leitura, em que histórias sobre rios, animais ou ciclos da água abrem espaço para conversas sobre pertencimento, cuidado e responsabilidade com o território. “Uma roda de leitura é mais do que compartilhar um livro: é um espaço coletivo de reflexão. Quando uma criança se encanta com a narrativa de um rio, passa a olhar para o lugar onde vive de outra forma e compreende que cuidar dele é também cuidar do clima”, explica.
Outro destaque são os livros artesanais produzidos por crianças e adolescentes, moradores das comunidades e frequentadores das bibliotecas da Vaga Lume. Cada exemplar, feito à mão, reúne histórias, memórias, saberes e fazer transmissões entre gerações. “Esses livros mostram como ambiente, clima e vida cotidiana estão entrelaçados. Quando uma criança segura um deles, percebe que a literatura também pode nascer do lugar onde vive e que sua voz tem valor”, afirma.
Para Jamra, o poder da literatura está em abrir horizontes e provocar pertencimento. “As histórias de autores da Amazônia trazem para o centro do debate quem vive a floresta todos os dias. São narrativas que carregam conhecimentos ancestrais e mostram modos de vida sustentáveis, revelando que cuidar do território não é apenas uma pauta ambiental, mas também cultural e social. Quando crianças e jovens se veem representando esses livros, fortalecem sua identidade e entendem que a preservação é parte de quem eles são.”
A proposta da Vaga Lume é transformar a leitura em espaço coletivo de reflexão e criação, no qual crianças e jovens conectam narrativas ao seu cotidiano e soluções para os problemas que enfrentam. Como defender o escritor quilombola Antônio Bispo dos Santos, Nêgo Bispo, contar histórias é também um modo de valorizar saberes ancestrais e fortalecer territórios, unindo pensamento crítico e encantamento que só o livro e as conversas sobre ele provenientes.
Então bre a Vaga Lume
Criada em 2001, a Vaga Lume está presente em 23 municípios da Amazônia Legal com 97 bibliotecas comunitárias em funcionamento. Neste ano, serão construídas mais cinco bibliotecas, sendo três em Uarini (AM) e duas em Barreirinhas (MA). Desde sua fundação, já doou 195 mil livros e formou mais de 6 mil mediadores de leitura, voluntários que leem para as crianças, trabalho esse que já impactou a vida de 111 mil crianças e jovens. Seu propósito é empoderar crianças e jovens de comunidades rurais da Amazônia por meio da leitura e da gestão de bibliotecas comunitárias, promovendo intercâmbios culturais com a leitura, a escrita e a oralidade para ajudar a formar pessoas mais engajadas na transformação de suas realidades.
Em 2024, a Associação Vaga Lume recebeu, pela terceira vez, o Selo de Direitos Humanos e Diversidade da Prefeitura de São Paulo. Em 2023, foi eleito pela terceira vez, sendo duas consecutivas, como Melhor ONG de Educação do Brasil pelo Prêmio Melhores ONGs do Instituto Doar. No mesmo ano foi contemplada pelo novo prêmio United Earth Amazônia, na categoria ESG, da sigla em inglês Environmental, Social, and Corporate Governance (Ambiental, Social e Governança) e, também, foi uma das organizações selecionadas em todo o mundo para receber uma doação da filantropa MacKenzie Scott. Em 2022 foi vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. Conheça o mini documentário Vaga Lume no YouTube e acesse o site da associação.
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