PISA 2025 confirma uma década de estagnação: 72% dos jovens brasileiros não atingem o mínimo em matemática
Para o Professor Dr. Renato Casagrande, pesquisador em educação e presidente do Instituto Casagrande Social, dez anos sem avanço consistente expõem uma emergência educacional; 43,8% dos estudantes estão abaixo do mínimo simultaneamente em matemática, leitura e ciências
Os resultados do PISA 2025 colocam um problema conhecido da educação brasileira em perspectiva de longo prazo: o Brasil completa uma década sem avanço consistente na aprendizagem. Divulgada em 8 de setembro de 2026, a avaliação mostra que 72% dos estudantes brasileiros não atingem o nível mínimo esperado em matemática. Mais grave: 43,8% apresentam desempenho abaixo do mínimo simultaneamente nas três áreas avaliadas: matemática, leitura e ciências.
“Uma geração inteira passou pela escola e o Brasil permaneceu praticamente no mesmo lugar. Em educação, ficar dez anos no mesmo lugar também é retroceder”, afirma o Professor Dr. Renato Casagrande, escritor, pesquisador em educação e presidente do Instituto Casagrande Social.
O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) é conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e permite observar, em perspectiva internacional, o que estudantes conseguem mobilizar dos conhecimentos adquiridos na escola diante de situações e problemas. A avaliação considera três grandes áreas: matemática, leitura e ciências.
Mais do que verificar conteúdos memorizados, o PISA ajuda a medir em que condições os jovens conseguem interpretar informações, raciocinar, resolver problemas e utilizar conhecimentos essenciais para a vida adulta. Por permitir comparações entre países e acompanhar a evolução dos resultados ao longo do tempo, seus dados são uma referência para a análise de políticas educacionais.
No Brasil, os resultados de 2025 reforçam uma trajetória de estagnação. Em relação a 2022, matemática passou de 379 para 377 pontos e leitura, de 410 para 408. Ciências apresentou melhora, de 403 para 409 pontos.
As oscilações de dois pontos em matemática e leitura não são estatisticamente significativas e, portanto, não devem ser interpretadas como uma queda acentuada. O sinal mais relevante está no longo prazo: o país não conseguiu construir uma trajetória consistente de melhora da aprendizagem.
“O PISA não mostra um Brasil em queda livre. Mostra um país que se acostumou a permanecer parado em um nível muito baixo”, analisa Casagrande.
Sete em cada dez jovens não atingem o mínimo em matemática
A dimensão do problema fica mais clara quando os resultados são observados pelo nível de aprendizagem dos estudantes. Além dos 72% abaixo do mínimo em matemática, 51% não atingem o patamar mínimo em leitura e 52% estão nessa condição em ciências.
Na outra ponta, apenas 1,8% dos estudantes brasileiros alcançaram alto desempenho em pelo menos uma das três áreas avaliadas. Em matemática, o Brasil registrou 377 pontos e ficou na 71ª posição entre 89 participantes com dados disponíveis nessa área.
“Quando 72% dos jovens não alcançam o mínimo em matemática, já não estamos falando apenas de um problema escolar. Estamos diante de uma emergência nacional”, afirma Casagrande. “O país não consegue garantir o básico para a maioria e forma um número muito reduzido de estudantes com desempenho avançado.”
Para o pesquisador, o resultado precisa ser entendido para além das notas escolares. Dificuldades persistentes de leitura, raciocínio matemático e compreensão científica acompanham esses jovens na continuidade dos estudos, na formação profissional e na capacidade de lidar com um cotidiano cada vez mais dependente de informação, tecnologia e pensamento crítico.
Desigualdade amplia a distância dentro do próprio Brasil
O PISA 2025 também evidencia que a aprendizagem continua profundamente associada às condições socioeconômicas dos estudantes.
Em ciências, os 25% mais desfavorecidos registraram 380 pontos, enquanto os 25% mais favorecidos chegaram a aproximadamente 476. A diferença é de 96 pontos — equivalente, em uma conversão aproximada, a quase cinco anos de aprendizagem.
A origem socioeconômica explica 16% da variação do desempenho em ciências. Entre 2022 e 2025, a distância entre os grupos mais e menos favorecidos ainda aumentou cinco pontos.
Para Casagrande, os próprios resultados dos estudantes em melhores condições socioeconômicas ajudam a afastar uma interpretação equivocada de que o baixo desempenho seria uma limitação do aluno brasileiro.
“O jovem brasileiro é capaz de aprender; o país é que ainda não oferece as mesmas condições para todos”, afirma.
Inteligência artificial chega às salas de aula antes da preparação das escolas
O PISA 2025 traz ainda um retrato de uma transformação que avançou rapidamente sobre a rotina escolar: o uso da inteligência artificial.
Quase metade dos estudantes brasileiros, 48%, afirma utilizar chatbots de IA em tarefas escolares pelo menos uma vez por semana. Ao mesmo tempo, o índice de capacidade digital das escolas brasileiras ficou em -0,86, e o país alcançou 406 pontos na avaliação de resolução de problemas com ferramentas computacionais.
“A tecnologia chegou antes da preparação educacional das escolas”, avalia Casagrande.
O pesquisador chama atenção para a necessidade de o debate sobre inteligência artificial na educação ir além da simples autorização ou proibição de ferramentas. A questão central, segundo ele, é como incorporá-las sem enfraquecer competências que a própria avaliação mostra serem frágeis entre os estudantes brasileiros.
“O risco da inteligência artificial está na formação de uma geração que recebe respostas prontas, mas perde a capacidade de ler, questionar e construir o próprio pensamento”, afirma.
A distração provocada pelos dispositivos digitais também aparece nos resultados. Um em cada quatro estudantes brasileiros relata se distrair com aparelhos digitais durante as aulas de ciências. Entre esses alunos, o desempenho médio é 19 pontos menor. Paralelamente, a proporção de estudantes matriculados em escolas com restrições ao uso de celular passou de 37% em 2022 para 81% em 2025.
Para Casagrande, os resultados reforçam a necessidade de concentrar políticas educacionais no que efetivamente chega à aprendizagem: alfabetização consistente, domínio da matemática básica, recomposição das defasagens, formação de professores, gestão escolar e uso pedagógico responsável da tecnologia.
Depois de uma década sem avanço consistente, o principal alerta do PISA não está em uma oscilação pontual de dois ou seis pontos. Está no tempo perdido por estudantes que atravessaram diferentes etapas da educação básica enquanto o desempenho nacional permaneceu praticamente estagnado.
Fonte dos dados: PISA 2025 – Results, Volume I, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em 8 de setembro de 2026.
Sobre Renato Casagrande
Renato Casagrande é educador, pesquisador, escritor e presidente do Instituto Casagrande Social. Com mais de 30 anos de experiência na educação, atuou como professor, diretor escolar, gestor público, consultor e líder de instituições de ensino. Mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), doutor em Educação pela Universidade de Aveiro (Portugal) e especialista em Liderança Educacional pela Penn State University (EUA), dedica sua carreira ao desenvolvimento de pesquisas, à formação de educadores e ao fortalecimento da gestão educacional. É autor de livros e palestrante, sendo referência em temas como liderança, inovação, formação docente e os desafios da educação brasileira.

