Os dois irmãos

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Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Dois irmãos eremitas viviam juntos na mesma casinha, havia muitos anos, e eram muito conhecidos por sua humildade e paciência. A morada era de adobe, rebocada e bem arrumada. Ao redor dela tinham uma horta sempre bem regada, porque souberam aproveitar de um riacho que passava por perto. Tinham fruta, verdura e flores o ano inteiro, com tanta fartura, que podiam distribuir o que colhiam a outros eremitas. Certa vez, um velho monge, que tinha ouvido falar das grandes virtudes dos dois, decidiu visitá-los, para conferir se era tudo verdade o que se dizia. Ele foi acolhido com muita reverência e alegria por parte dos dois irmãos e eles, depois de terem rezado juntos, quiseram lhe mostrar o seu jardim. O velho olhava tudo aquilo e dizia:

– Bonito, muito bonito, até demais para dois eremitas.

Assim pegou um bastão e, com toda a força, começou a quebrar couve, alface, pepinos, berinjelas, todas as demais verduras e acabou, também, com as flores. Os dois ficaram olhando, boquiabertos, e só conseguiram dizer:

– Ó meu Deus!

Mais tarde, depois que o velho monge tinha se sentado à sombra e estava enxugando o suor, os dois se ajoelharam diante dele e lhe disseram:

– Pai, se não se importar, gostaríamos de colher um pouco da couve que sobrou para poder cozinhá-la e comermos todos três.

O velho não estava acreditando aos seus ouvidos. Cheio de maravilha abraçou os dois e disse:

– Dou graças a Deus! Agora sei que o Espírito Santo mora mesmo com vocês.

Agradecer e louvar a Deus quando as circunstâncias nos parecem favoráveis não é muito difícil; podemos dizer que a gratidão brota espontânea em nosso coração. Estamos felizes e satisfeitos. Ele está ao nosso lado. Muito obrigado, Senhor! Bem diferente é quando tudo parece desabar em nossa vida. Para continuar a acreditar em Deus e confiar nele, nas horas difíceis da vida, precisamos mesmo de muita fé, uma fé sólida, enraizada e, queira Deus, inabalável. Nem todos somos cristãos assim. Vacilamos. Justamente na hora em que mais precisaríamos da força do Senhor, acabamos duvidando do amor dele. Na hora do sofrimento, pensamos que se esqueceu de nós, que deixou de nos amar. Para todos nós, dificuldades e provações são testes decisivos para a nossa fé. Sem dúvidas.

Talvez seja para nos ajudar a entender e a superar os momentos difíceis, pessoais e das nossas comunidades, que o evangelista Marcos colocou a página do evangelho deste domingo no seu livro. Ou, simplesmente, foi uma história de medo contada pelos apóstolos. Ficou na memória. Ter medo de morrer é humano, faz parte da consciência da nossa fragilidade. Não somos super-homens, temos medos. O que a um cristão, porém, não pode faltar é a fé. Jesus reprova os discípulos: “Ainda não tendes fé?”. Naquele momento, ter fé, para eles, era saber que, qualquer coisa que acontecesse, Jesus estava junto no mesmo barco. Verdade que ele estava dormindo, mas estava. Ter fé, na hora das tempestades da vida, é sentir o medo humano, mas não se deixar levar pelo desespero. Tem Alguém conosco, alguém bom, que não vai nos abandonar. Jesus parece não ligar, não responder logo, não resolver tudo na hora, mas está presente. Devemos confiar. À sua palavra o vento e as ondas se acalmam, volta a paz.

É fácil entender que nós, como cristãos, devemos ser pessoas capazes de comunicar confiança. Prontos a ajudar outros a olhar mais longe e a não ficar enxergando somente as circunstâncias adversas. A nossa vida é uma grande travessia e dá para se esperar que aconteçam turbulências. O amor do Senhor não é de um momento, é de sempre, acompanha-nos até chegar ao porto seguro.

O que não devemos é ser destruidores da paz alheia, do trabalho e esforço dos outros. Nem para colocar à prova a fé das pessoas. Ainda bem que os dois irmãos eremitas não fizeram questão de ter perdido o seu jardim. Outras flores nascerão. A fé vence o medo.

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