Bar do Parque: Uma fotografia na parede

Charge: JBosco

Transgressor, como todo bom bar, o Bar do Parque do final da década de 1970 não era nem de longe o palco melancólico com que se despediu da cena de Belém há dois anos para troca de concessionário municipal e reforma radical que se arrasta para torná-lo um bar-café chique. Quando fechou, com vestígios de saudade, nenhum dos conhecidos frequentadores do bar – com exceção de algum ou outro renitente – se aventurava a bater ponto por lá, como ocorria na época de ouro.

A rigor, o Bar do Parque teve diversas fases áureas. As primeiras podem ser consultadas na literatura e historiografia disponíveis. As mais recentes, da década de 1960 para cá, são contadas oralmente – e agora bem mais com tantas ferramentas tecnológicas perto de cada mão que balançou o bar.

Sem pretensão histórica ou de outra ordem, gosto de lembrar das reuniões noturnas sem hora marcada que aconteciam para mim na saída da universidade e, anos mais tarde, ao fechamento dos jornais. A efervescência cultural de uma Belém agitada e produtiva orientava os nossos passos rumo ao bar.

Lembro que as mesas embaixo da frondosa árvore que separa o bar do Theatro da Paz eram muito concorridas por isso. Ali se reuniam os cronistas da cidade e ninguém queria perder as novidades literárias, políticas, teatrais, fotográficas, esportivas e tragicômicas que se descortinavam na nossa frente.

Recordo que, sob a árvore e ao redor de três mesas em especial, gravitava a gente ansiosa por notícias, conversas jogadas fora e bebidas em doses sempre insuficientes. A madrugada, que ninguém detém, era demasiadamente curta para tanta fome de viver – e de morrer de infinita liberdade num tempo em que ela era artigo raro por causa dos generais.

Os músicos, escritores, jornalistas, estudantes e os diletos amigos do poeta tinham predileção pela mesa do multifacetário Ruy Barata. Nela, além da convivência com um dos maiores símbolos da boemia de Belém, havia produção literária instantânea em profusão – boa parte perdida no instante seguinte pelo desregramento alcoólico. Ninguém lembraria depois do poema dito de repente ou da composição musical iniciada entre drinques.

Já a velhíssima guarda do bar se reunia em torno da mesa de Paschoal Novelino de Castro, pai da estilista Paula Novelino de Castro. Muitos já nem bebiam. Eram arrastados para o bar pelo costume e certamente pelas lembranças, querendo que tornassem à vida. A mesa, posicionada rente ao gradil da escada que levava à cozinha e ao banheiro no subsolo, levantava inteira e ia embora, junto com Paschoal, quando o motorista dele encostava o carro para o embarque. Eram predominantemente conversas graves da política e da gestão da cidade.

Clima inverso, a terceira mesa era comandada por Mário Müller, um aposentado do Serviço de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará (Snapp), antecessora da Enasa, ambas originárias da Amazon River. Müller trabalhou na época da famosa Frota Branca e tinha muita história para contar. Bem-humorado, baixinho, branquinho e bigodinho à escovinha, ele caprichava no relato das viagens pitorescas.

Tantas histórias deram a Müller a ideia de fundar um jornalzinho mensal com notícias satíricas e exclusivas dos frequentadores da mesa. Para tanto, criou uma carteirinha de imprensa com logomarca para os cúmplices da brincadeira. Ele, editor, e eu, redator, éramos tudo o que a “redação” do jornal tinha. Tiragem: 1 exemplar.

As “notícias”, necessariamente gozações com os frequentadores da mesa, eram guardadas a sete chaves até o dia de uma festa que o bon vivant Mário Müller patrocinava no casarão antigo em que morava no Umarizal. Em meio a garçons com gravatinhas borboletas, comida e bebida à vontade, o jornal era a grande atração da noite.

O ator, escritor e professor Homerval Ribeiro Teixeira se encarregava de ler o jornal-surpresa, formato A4, interpretando cada “notícia”, para agonia e leve constrangimento do personagem central presente e, claro, gargalhada geral. A festa varava a madrugada. No dia seguinte, no bar, a nova edição começava a ser pautada pela própria turma, que segredava as coisas a Müller. Ele me recontava para que eu escrevesse naqueles distantes anos de juventude – e agora pra vocês.

O Bar do Parque, como Itabira, é apenas uma fotografia na parede.

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Euclides Farias é cronista e jornalista, 59 anos de idade e 40 de profissão exercida nos jornais Marco Zero (AP), O Liberal, A Província do Pará, Agência Nacional dos Diários Associados (ANDA), Rádio Cultura, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde. É editor de coluna no Diário do Pará.
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A ilustração da crônica é do internacionalmente premiado cartunista JBosco AzevedoJBosco Azevedo

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