O caminhão do Guarasuco

O caminhão do Guarasuco trafegava carregado e preguiçoso pela rua General Rondon, no Laguinho, rumo ao fronteiriço Pacoval, em Macapá. Eram 11 da manhã daquele junho de 1973. Os pesados engradados que castigavam os pneus do caminhão levavam um dos mais apreciados e famosos referigerantes da época. Uma década antes, em Belém, o publicitário Osvaldo Mendes, da Mendes Publicidade, havia criado um slogan que mais tarde se tornaria bordão: “O Guarasuco está em todas”, referindo-se a todas as festas.

Com tanto sucesso de vendas do refrigerante, o caminhão não parava. Ora estava no Buritizal, Trem e Favela, ora aparecia de repente, como visagem, no bairro da CEA, para depois mergulhar para fora do centro da cidade. A frota, pequena, dava a impressão de estar reduzida a um veículo. Ele se desdobrava.

Naquele final da manhã, bem carregado, o caminhão do Guarasuco trafegava malemolente para cumprir rotas no Pacoval e no Jacareacanga, na mesma área. No Laguinho, ele rumava ao fim da General Rondon, quando uma tragédia aconteceu e colocou na história um dos personagens mais folclóricos do bairro negro, berço da cidade, da liberdade afro e do samba.

Por uma fatalidade, dessas que pode fazer a gente viajar antes do combinado, como gosta de dizer o grande brasileiro Rolando Boldrin, uma garotinha mandada pela mãe para comprar açaí na venda defronte à sua casa foi atropelada pelo caminhão. O corpo da menina, ainda desabrochando nos seus dez anos, ficou ali mesmo, exposto no asfalto.

Uma multidão correu para ver o infausto. De sua casa, lá perto, Benedito Silva, o Biluca, com DNA dos negros pioneiros da cidade e celebrizado como um dos fundadores da primeira escola de samba de Macapá, a Boêmios do Laguinho, em 1954, numa memorável reunião de amigos na casa dele, ouviu o alarido vindo da rua.

Figura folclórica no bairro, protagonista de histórias do gênio inventivo do povo e hoje um ancião admirado como totem da cultura popular, por sua contribuição ao samba e ao marabaixo, correu para o local do acidente. Misturou-se aos curiosos, ouviu relatos e, falante, passou ele próprio a ser o porta-voz do triste evento. Rodeado por mais gente que se amontoava, ele narrava.

– Foi o caminhão do Guarasuco. A garotinha saiu da vitaminosa e foi atravessar a rua. Taí no asfalto miolo misturado com açaí…

A frieza da narrativa, com excesso de realidade, e o mórbido gosto popular por mortes no trânsito incentivavam a “testemunha” continuar, mais e mais, a recontar a tragédia.

– Foi o caminhão do Guarasuco…

Já irritado, lá décima vez talvez, repetia quase a contragosto a novos curiosos que iam chegando.

– Foi o caminhão do Gua-ra-su-co, porra!…

Sem que percebesse, por trás dele, um perito do equivalente da época ao Instituto Médico Legal anotava tudo em sua prancheta.

Avesso à Polícia de Macapá, cuja fama de poucos amigos corre mundo desde os primórdios do lugar, Biluca acendeu os sentidos, pressentiu o perigo e levou um susto ao ver o perito tomando-o como testemunha do fato. Raciocínio ligeiro, tirou o corpo fora da investigação criminal.

– Diz-que, eu não vi! – arrematou.

Com 102 anos, Biluca está até hoje lá no Laguinho, vivinho da silva, para confirmar a história. Ou negar, botando tudo na costa larga da lenda.

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Euclides Farias é cronista e jornalista, 59 anos de idade e 40 de profissão exercida nos jornais Marco Zero (AP), O Liberal, A Província do Pará, Agência Nacional dos Diários Associados (ANDA), Rádio Cultura, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde. É editor de coluna no Diário do Pará.

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