Sem celular nas escolas: Lei muda a rotina dos alunos e gera desafios para educadores em Macapá
Com algumas regras mais rígidas, escolas encontram resistência dos alunos, mas já é possível ver avanços acadêmicos e na convivência dos alunos.
Por: Andreia Tavares e Maiely Cardoso
As redes sociais foram tomadas por manifestações de alunos do ensino fundamental e médio, revoltados com a lei que restringe o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos em escolas públicas e privadas, inclusive durante os intervalos e pausas entre as aulas.
A Lei nº 15.100, aprovada no ano passado, autoriza o uso de telefones apenas para fins pedagógicos ou em situações de emergência. A medida provocou reações acaloradas entre estudantes e pais, que expressaram dúvidas e preocupações sobre as novas regras.
A lei surgiu dos problemas que o uso contínuo de telefones pode causar na vida de estudantes do ensino fundamental e médio. O uso excessivo de telas como computadores e, principalmente os telefones, afeta o desenvolvimento cognitivo e causa problemas na vida escolar, como distrações durante as aulas.
Dados mostram o impactos que os aparelhos têm na educação, no ano de 2022 o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgaram a avaliação de conhecimento e habilidades dos estudantes na faixa etária de 15 anos (idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países) nas disciplinas: matemática, literatura e ciências. A avaliação é feita pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
Os resultados mostraram que os brasileiros praticamente tiveram as mesmas médias de 2018 nas disciplinas. Fatores econômicos e sociais influenciaram nos resultados.
A pandemia também teve influência nisso. Durante o isolamento social, os estudantes passaram a assistir às aulas pelo computador ou celular, e esses aparelhos se tornaram importantes para os estudos. Porém, no período pós-pandemia, o uso excessivo desses dispositivos acabou se tornando mais um problema do que uma ajuda na vida escolar.
Em Macapá, iniciou-se a campanha sobre a restrição regulamentar do uso de celular, que tem o objetivo de trabalhar com os estudantes a compreensão da restrição do uso do aparelho, explicar os impactos e os motivos pelo qual o celular não está contribuindo nas aulas e na aprendizagem do aluno.
O projeto tem como objetivo proteger a saúde mental dos jovens, incentivando escolas a oferecerem ambientes mais acolhedores, fortalecerem a convivência e reduzirem o tempo excessivo diante das telas.
A restrição do uso de celulares, porém, exige cuidado na aplicação. Apesar de pesquisas indicarem que a retirada dos aparelhos na entrada da escola seria o ideal, a medida é difícil de executar na prática. Por isso, segundo o coordenador da Seed, Cleiberton Souza, a estratégia adotada aposta na conscientização dos estudantes. O aluno pode usar o celular até o portão da escola para avisar a família, mas, a partir dali, deve desligá-lo e guardá-lo.
A iniciativa busca fortalecer a responsabilidade e a confiança dos estudantes, facilitando o trabalho da coordenação pedagógica no cumprimento das novas regras.
Também temos que levar em consideração o uso para o entretenimento nos intervalos das aulas que era bastante comum para os estudantes. Mas com a restrição, cabe a cada escola fazer seu plano para não deixar os alunos ociosos, e essa é uma responsabilidade que tem sido difícil.
A coordenadora pedagógica Ana Lobo, trabalha no Colégio Amapaense, instituição de ensino integral. Segundo ela, os alunos não estão se adaptando bem à regra. Ela diz já ter acionado os pais dos estudantes mais de 20 vezes em um só dia.
Na instituição, eles agem da seguinte forma: os inspetores são instruídos a levar à coordenação os alunos que forem encontrados mexendo no telefone. Lá, eles pedem que o aluno entregue o celular, que é colocado em um envelope, o próprio estudante coloca o aparelho, lacra o envelope e escreve suas informações no papel.
Quando esse processo todo é concluído, a coordenação aciona os pais/responsáveis, que tem que comparecer à escola para pegar o aparelho.
“Não está sendo fácil. A gente percebe que, quando recolhemos o celular deles, eles melhoram por uns dias, depois voltam a mexer normalmente. Os alunos ficam chateados, às vezes tratam a gente mal. Isso dá muito trabalho, mas, se tem uma norma para seguir, a gente segue” , contou Ana.
Essa chateação tem nome e a nomofobia, esse é o termo usado para descrever o medo ou ansiedade de ficar sem o acesso ao celular. Esse comportamento foi identificado em jovens, que, quando afastados do aparelho, apresentam sintomas de irritação, inquietação, dificuldades de concentração e até crises de ansiedade.
Este termo foi usado pela primeira vez em 2008, em um estudo feito pelo UK post Office, que revelou que 53% das pessoas sentiam algum tipo de angústia ao ficar longe de seus telefones.
Em Macapá, esse comportamento se mostra cada vez mais presente entre os jovens, principalmente nesse momento em que a escola precisa fazer a retirada do aparelho dos alunos.
Alguns pais ajudam a coordenação e aparecem para pegar o telefone sem maiores problemas Já outros não gostam de serem chamados na escola tantas vezes para fazer algo que eles não consideram necessário.
Os pais que questionam sobre os procedimentos feitos hoje pela coordenação, são os mesmos que concordaram com essa conduta na hora da matrícula.
“Na primeira reunião que tivemos aqui, a gente conversou sobre essa nova regra com os pais. Trouxemos uma juíza para explicar direitinho a lei para eles. Então, tudo foi alinhado com os pais, mas agora tá bem complicado”, disse Adriana Santos, que também é coordenadora na instituição.
Na coordenação, o trabalho não está sendo fácil. Mas, e na sala de aula, será que está diferente? A professora de Língua Portuguesa, Adriana Santos, diz que sim.
“A gente tá tendo um resultado satisfatório. O rendimento dentro de sala de aula aumentou. Agora a gente tem aquele olhar do aluno, as brincadeiras antigas estão voltando para dentro da sala de aula. Eu já peguei eles brincando de adoleta e de várias outras coisas. Passamos por algumas dificuldades, mas, ao todo, temos mudanças positivas. Ao meu ver eles estão se adaptando bem”, contou a professora.
Para a professora Patrícia Ferreira, as aulas fluem melhor “ A gente ainda tem um ou outro que tenta burlar a regra, mas eles estão seguindo bem. Agora, eles copiam o que está no quadro. Antes só tiravam uma foto do conteúdo, que nunca ia parar no caderno. Eu que estou em sala de aula só vejo mudanças positivas”, declarou.
Apesar das realidades conflitantes entre coordenação pedagógica e professores, o trabalho de restrição ao uso do telefone parece estar surtindo efeito no colégio amapaense, onde os alunos apresentam uma melhora nos estudos e na atenção.
A instituição oferta clubes para os alunos no contraturno, para que a jornada sem o celular se torne mais fácil. No local, são oferecidos clubes de xadrez, crochê, futebol, entre outros. Tudo para manter os alunos focados na vida fora das telas.

