Compromisso com os Povos Indígenas: um chamado à ação para o setor empresarial
Por Verônica Vassalo* e Bekoy Tupinambá**
No mês em que o Brasil celebrou o Dia dos Povos Indígenas (19), reforçamos a importância de reconhecer, respeitar e valorizar os direitos, os territórios e os saberes dos povos originários do Brasil em todas as esferas da vida social — inclusive no setor corporativo e no mercado de trabalho.
O Movimento Raça é Prioridade tem como objetivo mobilizar o setor empresarial para a inclusão de pessoas negras e indígenas em cargos de liderança até 2030. Nessa mesma direção, o Movimento Elas Lideram 2030 estabelece, em sua 3ª meta, a ampliação da presença de mulheres em posições de liderança, a partir de um olhar interseccional que contempla, também, mulheres indígenas.
Atualmente, o comitê consultivo do Movimento Raça é Prioridade conta com a participação de pessoas diversas, incluindo a representação indígena em sua governança, fortalecendo a legitimidade e a pluralidade dessa agenda.
Em breve, também lançaremos o projeto “Reflorestando o Corporativo”, uma iniciativa que busca aprofundar o compromisso do setor empresarial com a equidade étnico-racial, com foco em pessoas indígenas, e impulsionar a transformação das organizações.
O ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial reforça esse compromisso ao propor metas específicas voltadas à promoção da equidade para pessoas negras e indígenas, reconhecendo os desafios estruturais que marcam o contexto brasileiro.
Para o setor empresarial, essa data é um chamado à ação. Promover relações éticas, respeitar a consulta livre, prévia e informada e assegurar que cadeias de valor estejam livres de violações de direitos são compromissos fundamentais para uma atuação responsável e alinhada à agenda ESG.

As empresas têm um papel estratégico na construção de um futuro mais justo e sustentável — e isso passa, necessariamente, pelo fortalecimento dos direitos dos povos indígenas, pelo enfrentamento de todas as formas de discriminação e pela valorização da diversidade sociocultural que constitui o Brasil.
Avançar nessa agenda é contribuir diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e para a construção de uma economia que respeita pessoas, territórios e o meio ambiente.
Mas para além dos compromissos institucionais, é preciso trazer um olhar mais profundo sobre a realidade que ainda não aparece nos números do setor corporativo. Segundo o IBGE, os povos indígenas representam menos de 1% da população brasileira um dado que, por si só, já revela uma contradição histórica em um país que é, indígena e que ninguém discorda disso. Ainda assim, essa presença praticamente desaparece quando olhamos para dentro das empresas, especialmente em cargos de liderança, onde somos menos de 0,1%.
Esse dado não é apenas estatístico, ele é estrutural. Ele revela um distanciamento histórico entre o setor empresarial e os povos indígenas, que impacta diretamente a construção de um futuro verdadeiramente diverso e sustentável.
Quando olhamos para as mulheres indígenas, esse cenário se torna ainda mais sensível. Estudos apontam o aumento de mais de 500% nas violências com mulheres indígenas nas última década, um crescimento expressivo. Ao mesmo tempo, sabemos que um dos principais caminhos para romper ciclos de violência é a autonomia financeira um tema amplamente debatido no ambiente corporativo.
No entanto, como falar de autonomia financeira se mulheres indígenas praticamente não estão presentes nesses espaços? Como construir independência econômica sem acesso real a oportunidades, formação, empregabilidade e liderança?
Esse é um ponto de atenção urgente. A ausência de mulheres indígenas no mercado formal não é apenas uma questão de diversidade — é uma questão de proteção, de dignidade e de sobrevivência.

Por isso, mais do que incluir, é necessário aproximar. Criar pontes que considerem não apenas a presença, mas a permanência e o desenvolvimento dessas mulheres dentro das organizações. Isso passa por políticas de contratação, formação, escuta ativa e reconhecimento de trajetórias que muitas vezes não seguem os caminhos tradicionais do mercado.
O Brasil só será, de fato, um país comprometido com a equidade quando reconhecer que não há desenvolvimento sustentável sem os povos indígenas e que não há justiça social sem garantir que esses povos estejam também nos espaços de decisão, de construção e de liderança.
Fortalecer a presença indígena no setor empresarial não é apenas uma pauta de diversidade.
É um compromisso com a história, com o presente e, principalmente, com o futuro.
E, para compreender o quanto é urgente trazer os povos indígenas para essa discussão — no corporativo e em todos os cenários — talvez baste uma pergunta simples: quando foi a última vez que você teve um colega indígena?
*Verônica Vassalo é Gerente de Diversidade, Equidade e Inclusão do Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
**Jennyffer Bekóy Tupinambá é Estrategista Digital – BND Digital e Membro do Comitê Consultivo do Movimento Raça é Prioridade do Pacto Global da ONU – Rede Brasil

