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Muito café e pouco sono? Combinação predispõe à enxaqueca, sugere estudo com ratos

Além de indicar como doses altas do principal estimulante do café podem causar dor em algumas situações, pesquisa observou que as fêmeas estiveram mais expostas ao problema do que os machos

por Camille Bropp

e tudo que se conhece sobre a enxaqueca, a desigualdade é um dos aspectos mais intrigantes. Há décadas a ciência sabe que pessoas do sexo feminino são as principais vítimas dessa síndrome — isto é, um conjunto de sintomas, que inclui a dor — que afeta em torno de 15% da população mundial, interrompendo a rotina normal a cada crise. Um estudo recente do Laboratório de Farmacologia da Dor Orofacial da Universidade Federal do Paraná (UFPR) contribui para entender melhor essa vulnerabilidade ao trazer mais informações de como ela funciona diante de um hábito comum da atualidade, beber café para compensar a falta de sono.

Publicado na revista científica Headache, o estudo tem caráter experimental por ter sido realizado em ratos, mas dá indicativos de que esses dois “gatilhos de estilo de vida” reduzem a resistência do sistema nervoso ao desencadeamento da enxaqueca, especialmente nas fêmeas. Isso significa que deixam o organismo mais sensível à dor, criando o cenário para uma crise, que pode ser mais intensa.

Em outras palavras, na classificação dos cientistas, a combinação é um mecanismo de “preparação” (priming) para enxaqueca.

Ratos e seres humanos são diferentes na forma como seus organismos funcionam, com destaque, no caso, para a produção hormonal, o metabolismo e os padrões de sono. Contudo, a pesquisa consegue fazer indicações sobre como estudos em seres humanos (clínicos) podem elucidar sobre a enxaqueca, hoje um problema de saúde pública porque prejudica a vida de pessoas em idade produtiva.

“A enxaqueca não é uma simples dor de cabeça. É uma síndrome neurológica altamente incapacitante. É caracterizada por diversos sintomas, dentre eles, dor de cabeça de intensidade moderada à severa, náuseas, sensibilidade à luz e ao som”, explicou à Ciência UFPR a professora Juliana Geremias Chichorro, coordenadora do laboratório em Curitiba, docente no Departamento de Farmacologia da UFPR e uma das autoras do artigo.

Segundo as estatísticas globais citadas pelo estudo, as mulheres sofrem de duas a três vezes mais de enxaqueca do que os homens. Essa prevalência ocorre com a chegada da puberdade, a partir dos 15 anos de idade, acompanhando o fato de que a oscilação dos hormônios femininos, principalmente o estrogênio, está ligada cientificamente ao favorecimento da enxaqueca. Quando acomete pessoas do sexo feminino, a síndrome costuma ser mais frequente, duradoura e severa.

Entre as contribuições do estudo está o registro de como a enxaqueca afeta os sexos biológicos de forma diferente num quadro de cafeína com pouco sono. Enquanto o sistema nervoso das fêmeas “baixou a guarda” com um fator de estresse (como sono ruim ou café), os machos só apresentaram dor diante da combinação de todos os fatores.

“No nosso modelo experimental, as fêmeas foram significativamente mais sensíveis à combinação de cafeína e privação de sono, o que é consistente com o fato de a enxaqueca ser mais prevalente em mulheres”, avalia a professora Luana Fischer, que atua no Departamento de Fisiologia da UFPR e também participa do estudo.

Estudo simulou uso de cafeína em doses altas depois de sono superficial por três dias
Segundo a pesquisa, a forma como a cafeína (presente em várias bebidas, entre elas energéticos e chá preto) predispõe à enxaqueca é pela interação com outros fatores de risco que sensibilizam o sistema trigeminovascular, que é a rede de nervos e vasos sanguíneos da cabeça cujo desequilíbrio leva à dor.

A privação de sono é um desses fatores de risco, o que explica por que a combinação dele com a cafeína gerou alerta sobre ser problemática.

“Diante do protocolo experimental que nós utilizamos, não é possível afirmar que a cafeína atuou como gatilho, mas ela contribui para a sensibilização do sistema trigeminal [do nervo trigêmeo, o maior dos nervos cranianos], levando à exacerbação da dor”, explica Juliana Chichorro.

Para o estudo, os pesquisadores simularam consumo de cafeína durante privação parcial de sono em um grupo de 320 ratos de laboratório. Primeiro os ratos foram submetidos a um protocolo de restrição de sono de seis horas diárias por três dias consecutivos.

O padrão de sono dos ratos é diurno e mais segmentado do que o dos humanos. Por isso, para simular a rotina de quem dorme poucas horas por noite devido a demandas sociais, o sono dos animais foi reduzido de forma a impedir o sono profundo. Assim, a primeira fase do sono profundo, o sono de ondas lentas, foi reduzido em 98%, e o sono REM, que é posterior, foi suspenso.

Somado a isso, parte dos animais recebeu uma dose oral de 50 miligramas por quilo de cafeína. A equivalência da dose para seres humanos, porém, é um cálculo complexo, visto que a cafeína permanece no organismo dos ratos por bem menos tempo, daí a dose escolhida para a pesquisa ser alta.

“A recomendação para a população em geral é não consumir acima de 400 miligramas de cafeína por dia, cerca de quatro ou cinco xícaras de café. Em pacientes com distúrbios de sono e enxaqueca é possível que essa quantidade predisponha a uma crise”, compara Juliana Chimichorro.

Ratos fêmeas tiveram dor mais forte e latente, com duração de até 48 horas
A diferença do impacto disso para fêmeas e machos se mostrou depois que os cientistas simularam o gatilho de enxaqueca. Isso foi feito por meio da injeção de duas substâncias que são capazes de desencadear enxaqueca em humanos (dois neuropeptídeos chamados de CGRP e PACAP). As doses foram baixas e normalmente não causariam dor. Essa etapa permitiu aos cientistas confirmarem que a reação dos animais estaria relacionada à enxaqueca.

Como resultado, nas fêmeas a simples privação de sono ou o uso isolado de cafeína foi suficiente para que essas doses disparassem crises intensas de dor, o que não ocorreu nos machos.

A diferença entre os sexos ficou ainda mais evidente na análise da sensibilização latente, testada no quarto dia do experimento. Uma das características da enxaqueca é causar fotofobia, isto é, sensibilidade extrema à luz, que também piora a dor.

Assim, após uma hora de exposição a uma luz de 5000 lux (a mesma usada em hospitais, por exemplo), apenas as fêmeas que haviam passado pela combinação de sono restrito, cafeína e gatilhos biológicos tiveram a dor reativada, com efeitos que persistiram por até 48 horas.

Já os machos só apresentaram sensibilidade à dor quando submetidos à combinação tripla de todos os fatores de risco, e, ainda assim, de forma transitória, sem que a luz fosse capaz de trazer a dor de volta no dia seguinte.

Para os pesquisadores, essa análise vai ao encontro de uma tendência de saúde pública, que é a de investigar como o sexo biológico influencia os mecanismos das doenças, a forma como se apresentam e como os fármacos que podem as combater agem no organismo.

“Hoje é altamente recomendado incluir animais e pacientes de ambos os sexos nas pesquisas experimental e clínica, respectivamente. Essa medida tem colaborado para o melhor entendimento do papel do sexo em diferentes condições dolorosas”, diz Juliana Chichorro.

Cafeína causa enxaqueca? Depende do contexto
Outra contribuição da pesquisa é resolver um enigma científico: a cafeína é um fator de risco para a enxaqueca? A dúvida existe porque, ainda que a cafeína seja no geral contra-indicada para quem sofre de enxaqueca, algumas situações limpavam a barra desse estimulante.

Uma delas é que a cafeína é frequentemente utilizada como adjuvante (termo que significa “reforçador”) em analgésicos para dor de cabeça. É só prestar atenção aos rótulos nas farmácias: muitos analgésicos vendidos livremente têm cafeína.

Outra contradição é que já se sabe que a abstinência de cafeína pode levar à enxaqueca. Isso ocorre quando a substância é consumida pelo menos diariamente e esse hábito é interrompido de forma abrupta.

O estudo do Laboratório de Farmacologia da Dor Orofacial da UFPR segue a linha do “depende”. Quer dizer, os resultados sugerem que o impacto da cafeína não é fixo, mas condicionado à situação geral do corpo humano.

“O principal diferencial do nosso estudo é mostrar que o efeito da cafeína sobre a enxaqueca depende do contexto fisiológico [de como o corpo está funcionando] e da interação com outros fatores de risco, especialmente a privação de sono. A maior parte dos estudos anteriores analisou esses fatores de forma isolada”, explica Luana Fischer.

Dessa forma, a pesquisa indica que a cafeína que se soma a outras escolhas de vida e condições de saúde, podendo aumentar o risco de enxaqueca de forma mais ou menos grave. “Isso ajuda a explicar por que seu efeito na doença parece tão variável entre indivíduos e situações”, compara a pesquisadora.

Dinâmica com neurotransmissor do cansaço faz da cafeína um problema para quem tem enxaqueca
Mas como a cafeína age sobre o cérebro cansado? O estudo sugere que no centro da questão está a adenosina, um neurotransmissor, isto é, uma substância que comunica o cérebro sobre aspectos da situação do corpo. A adenosina vai se acumulando no cérebro ao longo do dia, induzindo ao sono à noite. Em outras palavras, funciona como mensageiro químico de que o corpo está cansado.

Em uma situação de privação de sono, essa molécula está em alta no cérebro, tentando forçá-lo a descansar, mas, ao mesmo tempo, o protegendo da dor do estresse. Quando a cafeína é incluída nesse quadro, ela acaba por impedir a adenosina de trabalhar, porque ambas as substâncias se ligam aos mesmos receptores do cérebro — só que a cafeína não os ativa.

Essa dinâmica de disputa impede que o corpo seja vencido pelo cansaço, já que a cafeína anula parte da adenosina, mas também o deixa mais suscetível à dor. Com isso, doses pequenas de gatilhos biológicos que não afetariam uma pessoa descansada acabam levando a uma crise de enxaqueca intensa.

A ciência já entende bem o papel da adenosina. Também sabe que privação de sono está associada à enxaqueca. É a primeira vez, porém, que um estudo conecta essas duas questões.

“Nossos resultados sugerem que a sinalização adenosinérgica [o processo biológico guiado pela adenosina] pode representar um elo fisiológico entre privação de sono e vulnerabilidade à enxaqueca. Isso contribui para explicar por que alterações no sono e o consumo de cafeína frequentemente aparecem associados às crises em pacientes suscetíveis”, detalha Luana Fischer.

Via Ciência UFPR

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