El Niño muito forte divide o Brasil entre chuva recorde e seca
O El Niño já está entre nós. Em apenas 14 dias, a cidade de São Paulo teve o setembro mais chuvoso desde 1943, quando começaram as medições: 253,8 mm no Mirante de Santana, três vezes a média do mês inteiro. Segundo o INMET, as estações de Bragança Paulista, Registro e Iguape já superaram seus recordes do mês.
As chuvas deixaram ao menos oito mortos na Grande São Paulo e quatro no Paraná, onde mais de 21 mil pessoas foram afetadas em 76 municípios. Esses balanços são das Defesas Civis estaduais e ainda não constam dos dados de populações afetadas deste boletim, que apresentam o registro federal alimentado pelos municípios dias ou semanas depois dos eventos. E mais chuva vem aí: um novo ciclone extratropical pode provocar temporais em nove estados a partir de domingo (20).
No Norte, o efeito é o oposto: o rio Branco segue abaixo das mínimas históricas em Boa Vista, e Roraima decretou emergência por 180 dias.
O índice da NOAA chegou a +2,0°C, um patamar de El Niño muito forte, enquanto o fenômeno ocorre sobre um planeta mais quente, no qual a atmosfera contém mais umidade e as chuvas extremas se intensificam.
A Defesa Civil de São Paulo atribui os temporais ao El Niño, e o Painel El Niño, do INPE e de outros órgãos federais, prevê chuva acima da média no Sul e em parte de São Paulo até novembro. Cientistas e meteorologistas ouvidos pelo ClimaInfo vão na mesma direção: estudos de atribuição ainda precisam confirmar o peso do fenômeno em cada evento, mas os extremos no Sul, no Sudeste e no Norte já trazem a assinatura do El Niño.
El Niño volta a ganhar força e chega ao patamar de muito forte: o Pacífico Equatorial marcou +2,0°C acima da média em 14 de setembro, depois de um mês estacionado em +1,8°C. A classificação definitiva do evento ainda depende da média de três meses; a NOAA calcula uma probabilidade de mais de 90% do El Niño ser muito forte entre setembro e janeiro. O índice já desconta o aquecimento de todo o oceano tropical, ou seja, esses 2 graus são do fenômeno, não do calor de fundo da mudança climática. O oceano leva de semanas a meses para transmitir o sinal ao continente.
Seca se agrava em Roraima, e o rio Branco deve seguir perto das mínimas históricas: em Boa Vista, o rio baixou 22 cm na semana e chegou a 93 cm, abaixo das mínimas históricas para o período e impressionantes 250 cm abaixo do nível que tinha nesta data em 2016, o ano anterior de mínima da estação. O Serviço Geológico do Brasil vê uma chance muito pequena de recuperação nos próximos meses: em julho e agosto, choveu 45% do esperado na bacia. Em Caracaraí, o rio Branco também está no nível mínimo histórico para a época. Na maior parte do restante da Amazônia, a vazante segue dentro do padrão, mas acelerou: o Purus caiu 120 cm em Beruri, o Solimões 111 cm em Manacapuru e o Negro 104 cm em Manaus.
Rio Branco sobe em Roraima, mas segue pior que no ano recorde de seca: oito das onze estações caíram na semana, e as duas que subiram são justamente as mais críticas. O rio Branco ganhou 3 cm em Boa Vista e 7 cm em Caracaraí, mas segue 136 cm e 156 cm abaixo do nível que tinha nesta data nos anos de mínima histórica de cada uma, 2016 e 1998. Nas outras bacias o quadro se inverte: o Negro em Manaus caiu 85 cm e ainda está 576 cm acima da seca recorde de 2024.
Açudes baixam em todo o Nordeste, e a Bahia tem a pior semana em mais de um mês: os níveis dos reservatórios baianos caíram de 64,7% para 62,7%, a maior queda semanal da série e quatro vezes a da semana anterior. O Nordeste caiu para 47,9%, terceira semana seguida abaixo de 50%, e Pernambuco passou a ter o menor volume da região, com 35,5%. No Sudeste/Centro-Oeste, o maior subsistema elétrico do país subiu de 57,1% para 57,4%, a primeira alta após seis quedas consecutivas. A variação é pequena e o nível segue na faixa de atenção: a recuperação dos reservatórios só começa com as chuvas de novembro e dezembro.
Previsão até novembro repete o padrão do El Niño, com seca no Norte e no Nordeste e chuva em excesso no Sul: o modelo do INMET, do CPTEC/INPE e da FUNCEME prevê temperaturas acima da média em todas as regiões entre setembro e novembro. No Nordeste, o déficit de água no solo deve superar 150 mm em novembro no Ceará, no centro-norte do Piauí e no oeste do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco e de Alagoas. No Sudeste, a chuva se divide entre São Paulo, acima da média, e o norte de Minas Gerais e o Espírito Santo, abaixo da média. Com a falta de chuva, o plantio da soja pode atrasar e a florada do café pode ser prejudicada nesses dois estados. No Sul, o excesso de chuva deve dificultar a colheita do trigo e a semeadura da soja e do arroz.
Amazônia passa o Cerrado e lidera os focos de fogo do ano: o bioma amazônico soma 22.577 focos desde janeiro, contra 21.910 no Cerrado. Em setembro, até o dia 14, foram 9.613 focos no país, 37,1% a menos do que um ano atrás, e a Amazônia respondeu por 58% deles; em 2025, eram 26%. No acumulado do ano, o Brasil está 11,5% abaixo de 2025, diferença que era de 6,4% na edição anterior.
Tempestades tiram mais de mil pessoas de casa em setembro, e mais municípios entram em emergência por seca: 1.214 pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas por chuva, vendaval e granizo desde o começo do mês, em 47 municípios de 9 estados; Campo Grande (MS) responde por 400 e Três Barras (SC), por 305. No mesmo período, 42 municípios de 8 estados tiveram decretos de emergência por seca ou estiagem reconhecidos pelo governo federal. No acumulado do ano, os deslocados chegam a mais de 532 mil, 61,6% a mais do que no mesmo período de 2025.
Publicações e Leituras Recentes
Jornalistas que queiram aprofundar nas causas e na ciência por trás dos números deste boletim encontram abaixo estudos e reportagens recentes sobre o El Niño e sua relação com a mudança do clima. São leituras úteis para contextualizar pautas e checar o que a literatura científica já estabeleceu sobre o fenômeno.
- 10 set 2026 · Temperatura máxima na estação seca sobe mais de 3 °C em área preservada da Amazônia
53 cientistas, com participação do Inpe · Communications Earth & Environment (via Correio Braziliense)
- 4 set 2026 · Seca do último El Niño atingiu 38% das áreas habitadas da Amazônia
MapBiomas · estudo (via Agência Brasil)
- 2 set 2026 · Painel El Niño 2026-2027: terceiro boletim de monitoramento do fenômeno no Brasil
INMET, Inpe, ANA, Cemaden, SGB, Sedec e Censipam · boletim mensal
- 10 jan 2026 · Mudança climática e El Niño por trás da chuva extrema que causou as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul
Em inglês: Climate change and El Niño behind extreme precipitation leading to major floods in southern Brazil in 2024
Clarke, B. et al. · npj Natural Hazards

