Dom Pedro José Conti: A revelação

Um guru prometeu a um discípulo uma revelação de importância maior do que qualquer coisa contida nas escrituras. Quando o discípulo pressurosamente a pediu, o guru disse:- Vá lá fora na chuva e erga os braços para o céu. Isso lhe trará a primeira revelação. No dia seguinte, o discípulo veio relatar:- Segui o seu conselho e a água escorreu-me pelo pescoço. Senti-me um perfeito tolo.- Bem – disse o guru – para o primeiro dia, essa é uma grande revelação, não acha?


Com este domingo, o Primeiro de Advento, iniciamos um novo Ano Litúrgico. É um tempo de preparação para aprender de novo a acolher o Senhor, sempre, e não somente no Natal que se aproxima. De fato, quando falamos em religião, logo pensamos no esforço humano de buscar a Deus, através da nossa inteligência, das orações e das práticas devotas. No entanto a primeira “novidade” da nossa fé é acreditar que a iniciativa da  procura seja do próprio Deus. Isso desde o início com a primeira pergunta dele a Adão: – Onde estás? (Gn 3,9). Se confiamos, a Bíblia é a história, contada de tantos jeitos e formas, de um diálogo entre Deus e a humanidade, feito de encontros e desencontros, de acolhidas e recusas. O que dá para entender é que Deus sempre respeitou e respeita a nossa liberdade. Contudo, ele nunca desiste de nos procurar e de chamar, de mil maneiras, a nossa atenção. Ele pede que abramos a ele o nosso coração, até formar aquela grande família que o reconheça como o único Pai que ama a todos e não quer perder nenhum dos seus filhos e filhas. É uma história longa e não sabemos a que ponto estamos nessa empreitada. O que cabe a nós, nos anos que passamos neste planeta viajante no universo, é nos deixarmos encontrar por ele para respondermos, agradecidos, àquela voz que repete a cada um, chamando-nos pelo nosso nome: “Onde estás?”. Se quizermos entrar nesse  caminho de busca, podemos descobrir, com alegria que, a cada ano, talvez, ficamos um pouco mais próximos dele.

É possível, porém, ficar mais longe. Não é tão difícil.


A página do evangelho de Lucas, deste domingo, é um exemplo de alerta. Se não tomarmos os devidos cuidados, os nossos corações podem ficar “insensíveis”, ou seja, indiferentes e desinteressados de Deus e de muitas outras coisas. Se preferirmos uma linguagem mais bíblica, seria como ficar com o coração velho e de pedra, em lugar daquele novo e de carne que Deus prometeu nos dar (Ez 36,26). As causas da “insensibilidade” são exemplificadas em três: a gula, a embriaguez e as preocupações da vida. Se as tomarmos ao pé da letra, a explicação é fácil. Os gulosos querem satisfazer somente os seus gostos e se empanturrar do bom e do melhor. Os beberrões correm o perigo de sentir falta somente das suas bebidas. Por fim, os que se deixam conduzir pelas preocupações da vida, evidentemente, nunca têm  tempo para pensar algo além dos seus negócios. Basta mudar um pouco as palavras para reconhecer a atualidade do alerta do evangelho.

A gula representa qualquer insaciabilidade, ou seja, a incapacidade de dizer: basta. Vale para o dinheiro, o poder e tudo o mais que ansiamos possuir sem limites. A embriaguez pode representar qualquer tipo de “droga”, que distorce a realidade e nos faz andar sem rumo, cambaleando pelos caminhos da vida. Enfim, as preocupações da vida, acredito que possam ser entendidas, também para brincar um pouco, com o excesso de curiosidade com que hoje muitos navegam pelas redes sociais, dando palpites e julgando a vida de tantos que nem conhecem, sem se interessar se o que espiam e fofocam da vida alheia é verdade ou não. Querer saber tudo de todos é pesado demais, ninguém aguenta tamanha tarefa. O resultado é sempre a incapacidade de enxergar além dos próprios interesses, vantagens e prazeres. Fica cada vez mais difícil sentir um pouco daquela compaixão que o samaritano sentiu ao ver o homem caído no chão. Precisamos muito ficar atentos e orar a Deus, mas sem fechar os olhos, para ver as coisas e as pessoas com o mesmo olhar misericordioso do Pai. Talvez uma “chuva” de silêncio e reflexão nos ajude a nos sentirmos um pouco “tolos” e a nos tornar mais humanos e fraternos.  

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