El Niño alimenta crise de incêndios e ameaça a saúde no Brasil
Fumaça das queimadas afeta os pulmões e o sistema cardiovascular e aumenta os riscos para crianças, gestantes e pessoas com doenças preexistentes.
O El Niño está intensificando a seca e alimentando uma grave crise de incêndios no Norte do Brasil. O fenômeno atua sobre um território cada vez mais quente e vulnerável aos extremos climáticos. Dados recentes de focos de calor apresentados na seção “Fogo na Amazônia” deste boletim mostram a dimensão do avanço do fogo em municípios de produção agropecuária. A combinação de seca, altas temperaturas e queimadas está ampliando a exposição de milhões de brasileiros a uma fumaça tóxica, capaz de provocar danos à saúde mesmo longe das áreas atingidas pelas chamas.
O principal perigo da fumaça está nas partículas finas de poluição, conhecidas como PM₂,₅, capazes de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar os alvéolos pulmonares. A exposição provoca irritação e inflamação das vias respiratórias, tosse, falta de ar e agravamento de doenças como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Mas os efeitos não se limitam à respiração: a poluição também pode desencadear respostas inflamatórias e alterações na circulação sanguínea, aumentando os riscos cardiovasculares, especialmente entre pessoas idosas ou com doenças preexistentes.
Um estudo publicado na revista Nature Communications analisou mais de 2 milhões de internações no Brasil entre 2008 e 2018 e estimou que ondas de incêndios florestais estão associadas a um aumento de 23% nas internações por doenças respiratórias e de 21% nas internações por doenças circulatórias, pressionando os serviços de saúde.
Outro estudo brasileiro identificou, no Sudeste, uma associação entre a exposição à fumaça de queimadas no primeiro trimestre da gravidez e um aumento de 41% nas chances de parto prematuro.
As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Seus pulmões ainda estão em desenvolvimento, suas vias respiratórias são menores e elas inalam proporcionalmente mais ar em relação ao peso corporal. Revisões científicas recentes investigam consequências de longo prazo para o desenvolvimento neurológico e a função cognitiva.
“A poluição do ar é uma agressão invisível que corrói silenciosamente o futuro das crianças”, alerta o pneumologista Felipe Saddy, que defende políticas mais rigorosas para garantir ambientes saudáveis, incluindo o controle das emissões industriais e veiculares, a ampliação de áreas verdes e o monitoramento da qualidade do ar. “É obrigação coletiva que o ar que nossas crianças respiram seja digno, puro e saudável.”
Informações sobre como se proteger e reconhecer sinais de alerta são essenciais para as comunidades expostas à fumaça. Entre as recomendações estão acompanhar os alertas de qualidade do ar, evitar atividades ao ar livre nos períodos críticos, manter portas e janelas fechadas e usar máscaras PFF2 quando necessário. Mas a proteção da população depende, sobretudo, do fortalecimento das ações de prevenção e combate aos incêndios, da fiscalização das queimadas ilegais e de políticas de monitoramento da qualidade do ar e resposta aos episódios de poluição.
Em 30 dias, a Amazônia teve 2,4 vezes mais focos de calor que no mesmo período de 2025: de 13 de setembro a 12 de outubro, a região registrou 15.449 focos, contra 6.507 um ano antes, e passou a responder por 53,1% dos focos do país. O Pará concentra mais da metade, com 7.984, e o Amapá teve quase o triplo de focos do ano passado. Cada foco de calor é um ponto com temperatura anormalmente alta detectado pelo satélite de referência do INPE: o número não equivale ao de incêndios e não mede área queimada.
Nem tudo é culpa do Super El Niño: desastres climáticos raramente têm uma causa única. Um El Niño, ao atingir a categoria forte ou muito forte, tende a ser apontado como única explicação para cada evento extremo. Este vídeo do ClimaInfo propõe um exercício de memória sobre extremos recentes no Brasil e mostra por que deixar a mudança do clima fora dessa conta distorce o debate. Assista no YouTube.
Temperatura do Pacífico sobe pela quarta semana seguida e chega a +2,4°C: o Pacífico Equatorial marcou +2,4°C acima da média na leitura semanal divulgada pela NOAA, a quinta seguida na faixa muito forte. Ao passo em que a temperatura segue subindo, o boletim registra mais desalojados por temporais no Sul e mais focos de calor na Amazônia, combinação compatível com o padrão histórico do El Niño.
Rio Branco volta a cair e encosta na mínima histórica em Boa Vista: o rio desceu 22 cm na semana e marcou 60 cm em 13 de outubro, 53 cm abaixo do nível da mesma data em 2016, ano da mínima da estação. A bacia do Rio Branco teve 31 mm de chuva de 13 de setembro a 12 de outubro, o menor volume da região monitorada e pouco mais de um terço do esperado para o período. Nas demais estações, a vazante segue dentro do esperado, mas a previsão da NOAA reproduzida pelo Serviço Geológico do Brasil indica chuva abaixo da média até 26 de outubro sobre a maior parte da bacia, incluindo as dos rios Negro, Solimões e Madeira. A estiagem prolongada no norte da Amazônia, padrão histórico do El Niño, coincide com a alta dos focos de calor na região registrada neste boletim.
Reservatórios recuam na semana tanto na geração de eletricidade quanto no abastecimento do Nordeste: o subsistema Sudeste/Centro-Oeste chegou a 55,7% em 11 de outubro, a terceira queda semanal seguida. No Nordeste, os 543 reservatórios monitorados pela ANA baixaram para 45,9%, com queda em todos os seis estados com dado agregado. Pernambuco, com 33,9%, segue o mais próximo da faixa de pré-colapso, abaixo de 30%. Outubro marca o início do período chuvoso no Sudeste e no Centro-Oeste, mas o prognóstico do INMET para o mês indica chuva abaixo da média em Minas Gerais, na maior parte do Centro-Oeste e na maior parte do Nordeste.
Focos de calor em outubro superam os de 2025, puxados pela Amazônia: de 1º a 12 de outubro, o país teve 12.649 focos, 4,4% a mais que no mesmo período do ano passado. A Amazônia concentrou 7.455 deles, 58,9% do total e 2,6 vezes o registrado em 2025, enquanto o Cerrado teve 40,9% menos. Só o Pará somou 4.397 focos no mês, mais que todo o Cerrado. No acumulado do ano, o país ainda está 5,5% abaixo de 2025.
Amazonas lança mais de 1 milhão de afetados por incêndios florestais no registro federal: em 9 de outubro, 36 municípios do estado registraram danos por incêndios florestais no sistema da Defesa Civil nacional, somando 1,14 milhão de pessoas afetadas, 701 mil delas em Manaus. Os registros ainda não foram reconhecidos pelo governo federal. 135 municípios, de 14 estados, tiveram decreto reconhecido para seca de 12 de setembro a 12 de outubro, 11 deles no Amazonas. Tempestades deixaram 24.736 pessoas desalojadas ou desabrigadas em 88 municípios de 8 estados, 34 vezes mais que no mesmo período do ano passado, com o Rio Grande do Sul (11,6 mil) e São Paulo (10,1 mil) à frente.
Publicações e Leituras Recentes
Jornalistas que queiram se aprofundar nos temas deste boletim encontram abaixo estudos sobre os efeitos da fumaça de incêndios na saúde, com atenção a gestantes e crianças. São leituras úteis para pautas sobre a temporada de fogo em um ano de El Niño.
- jan 2025 · O efeito da fumaça de incêndios florestais na saúde das crianças
Revisão sistemática de 24 estudos sobre efeitos respiratórios e outros desfechos na infância (em inglês) · Paediatric and Perinatal Epidemiology - jan 2024 · Exposição à fumaça de incêndios na gravidez e efeitos perinatais, obstétricos e na primeira infância
Revisão sistemática e metanálise; cerca de 16% dos estudos incluídos são brasileiros (em inglês) · Environmental Research - 9 set 2021 · Risco e carga de internações associadas à poluição de incêndios florestais no Brasil, 2000-2015
Estudo nacional com mais de 143 milhões de internações; crianças de até 9 anos e idosos com 80 anos ou mais são os mais afetados (em inglês) · The Lancet Planetary Health
Via Climainfo

