Uso do vírus zika contra câncer abre caminho a novos tratamentos em humanos

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) exterminam tumores cerebrais humanos em ratos com o uso do vírus, capaz de provocar microcefalia em fetos, em sua versão pura

O zika surgiu na África, mas o aumento de casos de infecção fez com que o vírus se espalhasse pelo mundo. Essas viagens provocaram alterações perigosas nesse agente infeccioso. A versão brasileira, por exemplo, é a única que causa microcefalia, problema de má-formação neural de fetos. Esse impacto nas células cerebrais, extremamente perigoso, foi usado como uma arma por cientistas da Universidade de São Paulo, que trataram tumores neurais humanos em ratos com o vírus. A experiência foi altamente positiva, com a eliminação completa de cânceres considerados comuns à infância, em cobaias. Os resultados estão na última edição da revista Cancer Research e podem contribuir para o surgimento de tratamentos mais eficazes na área oncológica.

Por meio da análise de amostras de tumores, os cientistas brasileiros notaram que a linhagem de células cancerígenas era bastante parecida com a de células-tronco neurais. A semelhança fez com que os pesquisadores levantassem a hipótese de que o zika poderia ser usado no combate aos tumores. “Pensamos que, se o vírus afeta as células neurais causando a microcefalia, ele também poderia combater o câncer já que suas estruturas são similares”, explicou ao Correio Carolini Kaid, pesquisadora da USP e primeira autora do estudo.

Os cientistas testaram, em laboratório, a ação do vírus brasileiro em células de tumores de próstata, mama e cólon, bem como em três linhagens de tumores embrionários cerebrais. O zika se mostrou mais efetivo no combate aos últimos. Ele também foi avaliado em culturas tridimensionais, com efeito ainda mais perceptível, o que reforçou a preferência do zika pelos tumores embrionários cerebrais. “Vimos que ele não tinha grandes efeitos no câncer de mama e de cólon, mas, depois de apenas três dias, ele já matava as células dos tumores neurais. O cancro de próstata também sofreu impacto, só que menor. Acreditamos que isso tenha a ver com o fato de o zika se alojar nos testículos dos homens, mas ainda não investigamos essa questão a fundo”, detalhou Kaid.

Com base nos resultados iniciais, os cientistas testaram a ação do vírus em ratos. Os animais receberam enxertos de células humanas derivadas de dois tipos de tumores embrionários: meduloblastoma e o tumor teratoide rabdoico atípico, cancros que afetam principalmente crianças com menos de 5 anos. “Depois da leucemia, esses dois são os tipos mais comuns de câncer em crianças, e são bastante agressivos. No caso do meduloblastoma, por exemplo, mesmo os pacientes que sobrevivem, muitas vezes, precisam viver com sequelas. Eles sofrem um impacto no seu desenvolvimento neural”, ressaltou a principal autora do estudo.

Os tumores regrediram em 20 dos 29 roedores tratados com o vírus zika. Em sete deles, a remissão foi completa e o cancro desapareceu. Em alguns casos, o vírus também foi efetivo contra metástases (quando o câncer se espalha para outros órgãos) — ou eliminou o tumor secundário, ou estimulou sua remissão. “Acompanhamos os camundongos uma vez por semana e tivemos uma surpresa quando vimos uma regressão total, em média de três a quatro semanas após o início do tratamento”, destacou Kaid.

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