Casa comum, nossa responsabilidade

Chegando no final da Quaresma, vamos refletir um pouco sobre a Campanha da Fraternidade (CF) deste ano. O lema é uma frase do profeta Amós (5,24): “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”.

Dom Pedro José Conti
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

O tema é de clara inspiração ecológica. O planeta terra é a nossa casa comum e todos somos responsáveis pela sobrevivência e a preservação da sua beleza. Esta campanha aproveita também do grande apelo “ecológico” que o papa Francisco lançou com a Carta Encíclica “Laudato Sí”. De maneira particular, a CF quer nos conduzir a refletir sobre o grave problema do saneamento básico. Lemos na página 15 do texto-base: “O saneamento básico inclui os serviços públicos de abastecimento de água, o manejo ade quado dos esgotos sanitários, das águas pluviais, dos resíduos sólidos, o controle de reservatórios e dos agentes transmissores de doença”.

Basta nos perguntar: a maioria dos cidadãos brasileiros tem acesso a todos esses serviços que, afinal, são direitos que provêm da própria dignidade humana e da necessidade de salvaguardar a saúde das pessoas? Viver no meio do lixo é desumano, causa doenças e exclusão social. Ter água tratada, esgotos cobertos, combate eficiente aos mosquitos transmissores de vírus perigosos para gestantes, crianças e adultos, não deveriam ser luxos para poucos, mas direitos garantidos para todos. De outra forma, continuaremos a ter cidadãos de classes privilegiadas, com seus direitos protegidos e serviços comprados, e cidadãos inferiores com seus direitos negados e sem condições para adquirir os serviços necessários a uma vida mais feliz e saudável.

É justo, mas também fácil demais, cobrar dos administradores públicos, eleitos pelo povo, que cumpram as suas obrigações. O velho ditado popular: “O que não dá foto, não dá voto” ainda continua inspirando obras públicas, às vezes bonitas, mas nem sempre úteis para a saúde das pessoas. Com efeito, os esgotos estão de baixo do chão; não chamam a atenção e nem suscitam o orgulho dos cidadãos. Por isso, acabam sendo considerados obras “secundárias” quando, evidentemente, a primeira finalidade dos administradores públicos é se manter no poder e não a vida saudável da população. Algo semelhante podemos dizer, também, para o lixo que produzimos. A coleta organizada já é um avanço; pensamos que o qu e foi jogado fora tenha magicamente desaparecido e nós o esquecemos. Na realidade, somente mudou de lugar: foi para um “lixão” e, conforme o tipo de material, vai demorar muitos e muitos anos para ser, digamos, reciclado pela própria natureza. Assim aparecem morros, áreas verdes, até bairros por cima, mas, por baixo, só lixo mais ou menos compactado. Basta cavar um pouco para descobrir a verdade.

Tudo isso para dizer que não basta reclamar e cobrar das autoridades ou dos outros: todos precisamos mudar – e muito – a nossa maneira de pensar e de viver. Toda Campanha da Fraternidade tem como primeira finalidade apontar também saídas para os problemas levantados. Experimentamos duas realidades que andam juntas e que precisamos corrigir antes que seja tarde demais. Falo do lucro que se quer conseguir de todo e qualquer jeito e, junto, o excessivo consumo de bens com relativo descarte. De um lado, está a ganância que não tem limites. Se para isso é necessário explorar, poluir, destruir não importa: o que vale é enriquecer. Assim estão se esgotando muitos recursos naturais que o planeta terra nos oferece: minérios, florestas e, sobretudo, a água, indispensável para a vida de todos. Junto vai o consumo desses bens direta mente ou através de uma infinidade de produtos industrializados que a propaganda nos oferece de forma atrativa. Cada dia, um sistema, baseado no lucro, cria-nos novas necessidades e novos desejos. Assim compramos, usamos, trocamos e descartamos facilmente muitas das coisas que adquirimos. Muitos objetos já são fabricados sem alguma possibilidade de ser consertados quando quebrarem. Vão para o lixo! Também muitos alimentos são desperdiçados.

Qualquer pessoa de bom senso, que sinta um mínimo de responsabilidade em favor da humanidade inteira, entende que precisa mudar em muitos aspectos a nossa maneira de viver. Caso contrário, as novas gerações encontrarão um planeta transformado, sim, mas também devastado; sem água limpa para tomar, ar puro para respirar e terra fértil para plantar. Poluição, acúmulo de lixo, gases venenosos e esgotos matando a vida de rios e mares, tomarão conta do planeta e a vida será mais difícil para todos. A Campanha da Fraternidade deste ano é um chamado à responsabilidade com a nossa “casa” comum. Deus nos entregou um mundo vivo e bonito. Ele é o Deus da vida e do amor, ensinou-nos o caminho da justiça e da paz. Nos chama todos a sermos jardineiros zelosos e não aproveitadores sem escrúpulo s das riquezas recebidas. Uma vida mais simples será também mais saudável.

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