Dom Pedro José Conti: Também eu não o conhecia

Dizem que quando Moisés levantou o seu cajado e estendeu a mão sobre o Mar Vermelho não aconteceu o milagre tão esperado. Foi somente quando o primeiro homem começou a entrar na água, no meio das ondas, que o mar se dividiu de maneira que os Hebreus puderam passar de pé enxuto.

Interpretação? Anedota? Não sei. O que essas poucas palavras querem nos dizer é que a fé exige decisão e firmeza. Algo de maravilhoso sempre acontece, quando nós acreditamos no que estamos fazendo, ou queremos fazer, e nas motivações que nos levam a agir. Esperar um milagre para começar a se mexer significa desconfiar. É sinal que duvidamos da bondade da causa pela qual lutamos e que temos medo de ser enganados por quem nos envia em missão. Ou seja: não temos ainda fé suficiente.

Com este domingo, iniciamos a primeira parte do Tempo Comum. Em seguida, teremos a caminhada quaresmal rumo à Páscoa. Esse tempo serve para nos ajudar a entender quem é Jesus e o que veio fazer e, direta ou indiretamente, quem somos nós, seus discípulos. O evangelho de João deste domingo, por exemplo, começa com uma afirmação de João Batista a respeito de Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Logo em seguida, porém, ele diz, duas vezes, que não o conhecia, mas que viu o Espírito Santo “descer e permanecer sobre ele” (v.32). Por fim, João Batista dá o seu “testemunho”: “Este é o Filho de Deus!” (v.34).

O evangelho de João é uma reflexão teológica ainda mais elaborada que os outros três evangelhos chamados de Sinóticos. Na forma que nos chegou, deve ser o último dos evangelhos escritos e, portanto, apresentando já as explicações que os cristãos das primeiras gerações davam da própria fé aos que chegavam para pedir o Batismo. Nesse sentido, entendemos a insistência sobre o fato de João Batista dizer “não conhecer” Jesus. Com efeito, um dos piores inimigos da fé cristã é um conhecimento superficial ou equivocado da mesma. Brigamos por questões secundárias e esquecemos as principais.

Desde o começo, as Comunidades cristãs tiveram que dar razões da própria fé não para arrebanhar fiéis bem doutrinados, mas para sustentar a mudança de vida, exigida por ela, e fortalecer o testemunho que podia chegar até o martírio. Quem entrava no grupo dos seguidores de Jesus devia ter consciência de quem se tornava discípulo e as consequências do Batismo cristão. Deixar a maneira de vida anterior com os seus valores, crenças e costumes, exigia preparação e, sobretudo, força de ânimo e decisão. Quem entrava no “caminho” cristão devia estar convencido de que estava sendo chamado a seguir algo muito melhor e valioso, também se o custo podia ser alto. Por isso, Jesus é apresentado como o “Cordeiro” imolado, uma imagem do Antigo Testamento realizada, agora, no crucificado que deu a sua vida por amor. É este “crucificado” que é o Filho de Deus, aquele que manifesta o Pai. No quarto evangelho, Jesus é apresentado como a testemunha do Pai. Assim devem ser os cristãos, a começar por João Batista; eles também devem dar testemunho de quem é Jesus. Mas como fazer isso se não o conhecem? Para o evangelista João, conhece Jesus somente quem está com ele, quem o acompanha por perto, partilhando sua vida, até aos pés da cruz e na descoberta do túmulo vazio por causa da ressurreição. É assim que todo discípulo “amado” se torna “testemunha”.

Talvez, também para nós hoje, seja necessário admitir que ainda não conhecemos bem Jesus. Por isso, somos cristãos mais cheios de dúvidas do que de fé; mais preocupados com aparências exteriores do que com a interiorização do Evangelho. Criticamos a Igreja-Comunidade na qual fomos batizados, talvez com saudade de tempos passados, em lugar de participarmos ativamente e acompanhá-la nos desafios da sua missão à humanidade de hoje. O mar se abrirá para mim e para nós juntos só se botarmos os nossos pés na água.  Sem medo. Assim a Igreja atravessará também esta nova época e as vindouras.

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