João Baptista Herkenhoff: Unanimidades

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É famosa a frase de Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. A frase não é para ser interpretada literalmente, mas constitui uma provocação salutar, provocação tão ao gosto do grande teatrólogo.
Diante de muitos abusos seria desejável uma reprovação unânime, Também seria animadora uma aprovação sem discrepância a certos atos meritórios. Há unanimidades que, se alcançadas, representam conquista ética numa sociedade.
O que incomoda é a unanimidade sem discussão, a unanimidade sem aprofundamento, a unanimidade que se contenta com uma análise parcial dos fatos e despreza o desdobramento que os fatos podem ter. O que repugna é a unanimidade obtida através da manipulação das consciências e da pretendida cassação da inteligência de que todas as pessoas são dotadas. O que repugna é a unanimidade que a propaganda bem feita pode alcançar, ainda que recheada de sofismas e meias verdades.
Há fatos importantes que devem ser discutidos em toda a sua extensão. É lamentável quando esses fatos são enclausurados numa manchete de efeito ou numa frase sonora e colorida. Perde-se a oportunidade de um avanço na visão crítica do povo.
A meu ver, a desconfiança é uma virtude. Quando todos aprovam, quando todos falam exatamente a mesma coisa, é prudente desconfiar, ir fundo, analisar.
Talvez depois do primeiro momento de desconfiança, e da análise que a desconfiança provoca, acabemos concordando também. Mas então não estaremos concordando como autômatos.
 Por não aceitar uma afirmação, sem antes desconfiar e analisar, milhões de pessoas preferem guiar-se pelo jornal em vez de se deixar hipnotizar pela televisão.
No jornal o leitor pode interromper a leitura e pensar. Pode recortar o texto que lhe  interessa para melhor exame e análise futura.
A televisão transmite mensagens instantânias. Se o telespectador está confortavelmente sentado, desprevenido, é apanhado de surpresa e nocauteado. Absorve o que lhe é imposto, com pouca chance de refletir.
Melhor ainda que frequentar apenas os veículos dirigidos ao cotidiano – jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão – é buscar informação e conhecimentos também nos livros. O livro é o grande construtor da consciência crítica.
Daí a apóstrofe de Castro Alves exaltando os que propagam livros (editores, professores, livreiros, bibliotecários):
“Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e  manda o povo pensar! O livro, caindo n’alma, é germe – que faz a palma, é chuva – que faz o mar.”
 
João Baptista Herkenhoff é juiz de Direito aposentado e escritor. E-mail:[email protected]

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